Vênus: último trânsito do século

 

Último trânsito venusiano do século. Imagem: "SDO's Ultra-high Definition View of 2012 Venus Transit por NASA/SDO, AIA - Flickr: SDO's Ultra-high Definition View of 2012 Venus Transit, Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons
Último trânsito venusiano do século. Imagem: “SDO’s Ultra-high Definition View of 2012 Venus Transit por NASA/SDO, AIA – Flickr: SDO’s Ultra-high Definition View of 2012 Venus Transit, Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons

Muita gente ao redor da Terra, exceto quem vive na Península Ibérica, na metade ocidental da África, e na porção leste da América do Sul, que corresponde a cerca de 80% desse continente, com o imenso Oceano Atlântico no meio, viu o disco venusiano cruzar lentamente a superfície incandescente do Sol, no que foi o último do século.

O evento aconteceu ao longo de cerca de 7 horas, entre 5 e 6 de junho de 2012, e foi, sem dúvida, o evento astronômico mais importante e esperado daquele ano.

Quem morava na faixa de exclusão não apreciou o fenômeno simplesmente porque era noite, enquanto no resto do mundo era dia.

Durante o trânsito, o planeta Vênus esteve em uma configuração astronômica chamada conjunção inferior e portanto, passou exatamente entre a Terra e o Sol.

Minúscula silhueta de Vênus contra disco fulgurante do Sol

Portanto, a minúscula silhueta de Venus pode ser vista de encontro ao disco fulgurante de nossa estrela, correspondendo a apenas cerca de 3% do tamanho dele.

Para compreender como trânsitos ocorrem

Para compreender como trânsitos ocorrem, considere que há a uma relação entre os planos orbitais de Vênus e da Terra, em volta do Sol.

Os dois planos se tocam duas vezes todos os anos, ao longo de uma linha chamada linha de nodos, nos dias 7 de junho e 8 de dezembro.

Os trânsitos ocorrem somente quando Vênus se encontra em conjunção inferior no intervalo de cerca de mais ou menos um dia, em torno dos dias 7 de junho e 8 de dezembro.

Portanto, são eventos extraordinariamente raros que acontecem em duplas. O de 2012 teve seu par em 2004, que por sua vez, ocorreu após um longo hiato de mais de um século desde o última dupla, em 1874 e 1882.

Testemunhei trânsito de 2004

É verdade que trânsitos de Mercúrio também acontecem e eu mesmo já testemunhei um, ocorrido algum tempo depois do trânsito venusiano de 2004.

Contudo, o de Vênus foi, para mim, bem mais marcante. Foi no dia 8 de junho daquele ano e lembro como se fosse hoje. Quando o dia amanheceu, corri para observar o trânsito, que já estava em andamento.

Não dispunha de recursos para observar detalhes como a silhueta da atmosfera venusiana. Apesar disso, foi especialmente marcante a passagem de Vênus de Estrela Vésper para Estrela d’Alva. Contudo, o que me chamou mais atenção mesmo foi o próprio Sol, como relato no post … e a estrela foi mesmo o Sol.

O trânsito venusiano mais aguardado

Observei o fenômeno do quintal de minha casa, olhando para o Sol ao nascer, através de óculos especiais. A impressão que tive sobre o fenômeno resultou em um longo artigo que fiz em seguida e neste blog, em 1º de setembro de 2014, como referido acima.

Vale ressaltar que o trânsito venusiano mais aguardado de todos foi, seguramente, o de 1871. Alertados pelo astrônomo inglês Edmond Halley – sim, o que definiu a periodicidade do famoso cometa que leva seu nome – seus pares de praticamente todas as partes do mundo acorreram para diferentes locais do globo onde o fenômeno seria visível.

O objetivo, proposto por Halley, era medir a duração do trânsito, que ele previra para aquele ano, e, com base nos dados de paralaxe, calcular, trigonometricamente, a distância Terra-Sol, chamada Unidade Astronômica (UA). Halley morreu antes do trânsito, mas o método sugerido por ele, para calcular a UA, se mostrou impreciso.

Efemérides do trânsito de 2014

O trânsito de 2014 começou com Vênus ainda Estrela Vésper, às 19h10 de terça-feira, 5 de junho, horário de Brasília, quando houve o primeiro contato. Foi o momento preciso em que o limbo do disco de Vênus tocou a borda incandescente do disco solar.

O segundo contato foi 18 minutos mais tarde, às 19h28, quando o limbo à retaguarda do planeta passou pela borda aparente da estrela e o minúsculo disco negro venusiano se encontrou inteiramente visível.

Vênus não passou exatamente pelo centro do disco solar, mas esteve o mais próximo dele às 22h30. O terceiro contato se deu a 1h32 de quarta-feira, 6.

E, 18 minutos depois, 1h50, aconteceu o quarto contato, após o que o trânsito terminou e Vênus, antes Vésper passou a Estrela Matutina.

A verdade é que, quem perdeu o par de trânsitos atual, perdeu a última chance da vida de apreciar o fenômeno. A próxima dupla de trânsitos venusianos será testemunhada por nossos filhos e netos, porque só acontecerá em 2117 e 2125.

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