Vazios de Tucano ao muro galáctico

Aglomerado globular 47 Tucano, como é visto ao telescópio. Imagem By ESO/M.-R. Cioni/VISTA Magellanic Cloud survey. [CC BY 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0)], via Wikimedia Commons
Aglomerado globular 47 Tucano, como é visto ao telescópio. Imagem By ESO/M.-R. Cioni/VISTA Magellanic Cloud survey. [CC BY 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0)], via Wikimedia Commons
Ao observar o aglomerado globular 47 Tucano ao telescópio, pela primeira vez, em 2003, com meu então novíssimo refletor de 25cm que eu mesmo construí, percebi cavidades em sua estrutura. A partir daí, notei que o céu estrelado é repleto dessas cavidades, que, de certo modo, são reproduzidas também nas estruturas de larga escala do Universo.

O objeto 47 Tucano, também chamado NGC 104, é visto a olho nu com o tamanho aparente da Lua Cheia. Formado há 10 bilhões de anos, é o segundo aglomerado globular mais brilhante do céu, com magnitude 4.9, só perdendo para Ômega Centauro, com o qual disputa o título de o mais esplêndido.

Onde localizar 74 Tuc na constelação do Tucano. Ilustração: By IAU and Sky & Telescope magazine (Roger Sinnott & Rick Fienberg) ([1]) [CC BY 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0)], via Wikimedia Commons
Onde localizar 74 Tuc na constelação do Tucano. Ilustração: By IAU and Sky & Telescope magazine (Roger Sinnott & Rick Fienberg) ([1]) [CC BY 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0)], via Wikimedia Commons
Ele fica na constelação do Tucano, visível no hemisfério sul nas proximidades da Pequena Nuvem de Magalhães, uma das muitas galáxias satélites da Via Láctea, embora a Pequena Nuvem esteja muito mais distante, 210 mil anos-luz daqui.

Aglomerado oco como espuma

Localizado a 16.700 anos luz daqui, suas milhões de estrelas individuais são invisíveis a olho nu, mas essa multidão de estrelas dá ao aglomerado sua aparência esfumaçada que o fez passar por cometa por seu descobridor, Nicolas Louis de Lacaille em 1751.

Claro, um aparelho amador como o meu newtoniano não consegue resolver seus 23 pulsares, suas centenas de fontes de raios X, estrelas variáveis contendo anãs brancas, estrelas de nêutrons ou mesmo algumas das suas 21 estrelas azuis retardatárias, resultantes da fusão de estrelas binárias.

De fato, quando mirei meu refletor rumo a esse objeto, quis observar suas estrelas individuais, o que consegui. E ao ver seus luzeiros cósmicos com aumento de 270x notei cavidades em sua estrutura, descoberta que me inspirou a estudar semelhanças em outras partes do Universo.

Poligonos em New_VISTA_snap_of_star_cluster_47_Tucanae
Estrelas formam os vértices das estruturas poligonais, no interior de 47 Tuc. Dentro de cada polígono é possível notar mais polígonos, como uma estrutura fractal. Desenho sobre imagem By ESO/M.-R. Cioni/VISTA Magellanic Cloud survey. [CC BY 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0)], via Wikimedia Commons

Com oculares que permitiam maior aumento, era possível virtualmente mergulhar no interior do aglomerado e quanto mais eu ampliava e observava em escala, mais cavidades eu via.

Logo, ao telescópio, 47 Tuc me pareceu oco, lembrando espuma, ou o interior esponjoso de um osso. Era perfeitamente possível ligar cada estrela do aglomerado a “paredes” que se uniam entre si para formar cavidades nos pontos em que se cruzavam.

Cavidades em todos os lugares do Universo

Fiquei intrigado com essa descoberta e, nas noites seguintes, ao observar o ceu a olho nu, percebi que cavidades semelhantes podem ser vistas também em meio às estrelas visíveis que formam as próprias constelações.

Então fui investigar mais a fundo. Consultei fotos de 47 Tuc em compêndios astronômicos e notei que as cavidades são vistas mesmo em imagens reproduzidas graficamente.

O mais impressionante era que essas cavidades são visíveis, também, permeando o que os astrônomos chamam “muralhas”, verdadeiros paredões constituídos por bilhões de galáxias que formam as maiores estruturas conhecidas no Universo inteiro.

Se no aglomerado globular 47 Tuc, que mede 120 anos de diâmetro, as estrelas se ligavam entre si para formar suas paredes e, entre elas, vazios, nas imensas muralhas cósmicas são as galáxias, contendo cada uma bilhões e bilhões de estrelas, que se ligam para formar filamentos medidos não em anos-luz, mas em escalas de grandeza monstruosas, chamadas parcecs.

Representação das maiores estruturas do Universo. Ilustração: By Richard Powell (http://www.atlasoftheuniverse.com/nearsc.html) [CC BY-SA 2.5 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5)], via Wikimedia Commons
Representação das maiores estruturas do Universo. Ilustração: By Richard Powell (http://www.atlasoftheuniverse.com/nearsc.html) [CC BY-SA 2.5 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5)], via Wikimedia Commons
Parsec é a unidade que os astrônomos usam para medir distâncias maiores que as que cabem dentro do Sistema Solar, que se mede em unidade astronômica (UA), a distância média da Terra ao Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros.

Cavidades cósmicas circundadas por galáxias

Um parsec corresponde a 206.264,81 unidades astronômicas, ou 3,26156 anos-luz e portanto, é mais apropriado para medir as vastas distâncias entre as estrelas. Com efeito, as estrelas mais próximas do Sol, que formam o complexo trinário Alfa Centauro, distam pouco mais de 1 parsec, já que estão a 4 anos e 3 meses-luz de nossa dessa estrela mais próxima.

Mapa panorâmico do Universo, visto da Terra: localização das maiores estruturas. Imagem: By 2MASS_LSS_chart-NEW_Nasa.jpg: IPAC/Caltech, by Thomas Jarrett derivative work: Romullo [Public domain], via Wikimedia Commons
Mapa panorâmico do Universo, visto da Terra: localização das maiores estruturas. Imagem: By 2MASS_LSS_chart-NEW_Nasa.jpg: IPAC/Caltech, by Thomas Jarrett derivative work: Romullo [Public domain], via Wikimedia Commons
Mil parsecs são 1 quiloparsec, assim como 1 milhão de parsecs são 1 megaparsec. Os astrônomos calculam que as cavidades cósmicas circundadas por muralhas galácticas tenham entre 50 e 80 megaparsecs, ou de 163 a 261 milhões de anos-luz de diâmetro.

Como tudo no Universo é grandioso, trata-se de uma distância imensa. A gigantesca galáxia de Andrômeda, que está em rota de colisão com nossa Via Lactea, fica a “apenas” 2,5 milhões de anos-luz.

Se uma cavidade cósmica é indescritivelmente grande, maiores ainda são as muralhas galácticas, ou as paredes desses vazios. Uma parede dessas pode medir dezenas de centenas de megaparsecs.

O Universo é mais vazio que físico

E o que dizer de um filamento? Filamentos galácticos são braços de muralhas que se estendem por outras milhares de megaparsecs.

Representação tridimensional do espaço-tempo: Universo oco. Imagem: By NASA, ESA, and E. Hallman (University of Colorado, Boulder) [Public domain], via Wikimedia Commons
Representação tridimensional do espaço-tempo: Universo oco. Imagem: By NASA, ESA, and E. Hallman (University of Colorado, Boulder) [Public domain], via Wikimedia Commons
Talvez a maior estrutura conhecida do Universo seja o complexo chamado Grande Muralha de Hercules-Coroa Boreal, um descomunal filamento medindo 10 bilhões de anos-luz de extensão, quase o tamanho do próprio Universo, que mede 13,8 bilhões de anos-luz.

A soma de cavidades com paredes formam uma espécie de teia cósmica, que preenche toda a extensão do Universo observável. Os astrônomos acreditam que essa estrutura porosa foi formada nos instantes que se seguiram ao Big Bang.

O fato é que o Universo, que parece tão sólido, é mesmo dominado por vastos espaços vazios, cavidades grandiosas que fazem de cada galáxia, cada estrela e cada planeta um nada flutuando na imensidão do Cosmos.

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