Terra ganha novo oceano

Albertine Rift, um ramo ocidental do Grande Vale do Afundamento. Imagem by Christoph Hormann (http://earth.imagico.de/view.php?site=rift2a) [CC BY-SA 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons
Albertine Rift, um ramo ocidental do Grande Vale do Afundamento. Imagem by Christoph Hormann (http://earth.imagico.de/view.php?site=rift2a) [CC BY-SA 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons
A mesma força titânica que cindiu o primordial supercontinente Pangeia, há 200 milhões de anos, abriu uma enorme fenda de mais de 5.500 km, 35 milhões de anos atrás, afastando a placa tectônica da África da placa da Arábia, e dando origem ao mais jovem oceano da Terra, ainda sem nome. Parte do novo oceano já se formou ao norte da fenda e se chama Mar Vermelho.

Essa região gigantesca é o Great Rift Valley, ou Grande Vale de Afundamento da África, que se estende da Somália e Etiópia, no chamado Chifre da África, e se estende para o sudoeste em direção ao Quênia, e vira para o sul até Moçambique, ao sul.

Próximo ao local onde cruza o Equador, o Vale de Afundamento dividiu-se em fendas oriental e ocidental, delimitando os dois lados do Lago Vitória. E contém as maiores elevações de terras da África. Com efeito, as maiores montanhas de todo o continente está nessa região.

A oeste desse lago, está a Cadeia dos Mitumbas. E, a uns 400 km a leste do lago, ergue-se o Maciço do Katwe, com cerca de 50 crateras vulcânicas. Fica nesta região o grandioso Monte Quênia, com 5.202m. E mais ao sul, o imponente Kilimanjaro, no norte da Tanzânia.

O Kimimanjaro, rebatizado de Pico Uhuru, se constitui em um complexo formado por três vulcões – o Shira, o Mawenzi e o Kibu. Com seus 5.895m, o Kibu é o ponto culminante da África e o mais importante dos centros eruptivos desse complexo vulcânico.

 

Os triângulos vermelhos representam vulcões.
Os triângulos vermelhos representam vulcões. Imagem by USGS (http://pubs.usgs.gov/gip/dynamic/East_Africa.html) [Public domain], via Wikimedia Commons
Região interplacas

O Vale de Afundamento é uma das estruturas geológicas mais estudadas do continente negro, onde residem mais de 956 milhões de pessoas. Os complexos processos geológicos associados ao Grande Vale são responsáveis pela origem de vários lagos e pela topografia da imensa região. Escarpas enrugadas delimitando o vale são especialmente visíveis no Quênia e na Etiópia.

Na Etiópia, por exemplo, a escarpa Guraghe se eleva a 1.000m acima do vale. O vale, em si, resulta do alargamento da crosta entre as duas placas tectônicas. Vulcanismo, deslizamentos, erosão e deposição de solo – tudo isso acontece ao longo da região leste da fenda, sobretudo no planalto das crateras, na zona de afastamento interplacas.

A placa tectônica da África fica a oeste da fenda e a placa da Arábia, a leste. Dois ramos da fenda se juntam na Tanzânia, ao sul, após ladearem o Lago Vitória. Quando a crosta continental se estressa além de se próprio limite, rachaduras começam a surgir, algumas vezes formando vulcões.

Fraturas na crosta

Atividades vulcânicas são associadas ao alargamento da crosta, onde magma se eleva para preencher vazios entre as placas que se afastam, até alcançar a superfície, na forma de erupções, reconstruindo cones e fazendo mais pressão na crosta, para produzir fraturas adicionais e mais zonas de afundamento.

Crateras se formam quando parte de um vulcão explode. A região ainda tem caldeiras, que se formam quando um vulcão colapsa sobre si mesmo. Um exemplo de caldeira na região é a Cratera Ngorongoro.

A teoria de que está nascendo um oceano na região surgiu em 1893, quando o geógrafo britânico John Walter Gregory percebeu que o vale não havia se formado por um processo de escavação, como o que originou o Grand Canyon, nos Estados Unidos

Hoje, sabe-se que o enorme Vale de Afundamento é bem mais complexo. A largura do vale, em terra firme, varia de 30 a 100 km, com profundidades de algumas centenas a milhares de metros.

Evidência geológica

Contudo, pode ser dividido em três porções, segundo sua profundidade. Bem ao norte, os lados da fossa já se separaram mais de 230km e a fossa afundou a ponto de já ter se formado uma nova crosta oceânica. Essa região é hoje o Mar Vermelho.

Mais ao sul fica a Depressão de Afar, no canto sudoeste da península arábica. Nesse local, que se situa ao nível do mar, rochas que formam a crosta foram impelidas para longe umas das outras.

A terceira porção do vale corresponde ao Lago Baringo, bem mais ao sul, já no Quênia. Aqui, ambos os lados da fenda ainda estão bem próximos e bem acima do nível do mar. Destaque nessa região é a Laje de Kamasia, que se projeta para cima do solo da fenda.

Nasce um oceano

Como esse mesmo tipo de rocha é encontrado mais ao norte, onde o afundamento é maior, a laje é uma das evidências geológicas de que a crosta do vale está cedendo, enquanto se expande para os lados.

A atividade geológica associada ao Vale de Afundamento da África está rasgado a crosta terrestre, fazendo com que a Península Arábica, onde fica a Arábia Saudita, se separe do continente africano, formando o Mar Vermelho.

A divisão entre as placas africana e arábica tem uma terceira junção onde o Mar Vermelho se une ao Golfo de Aden.  E um novo ponto de afastamento pode estar se formando sob a África, ao longo da Zona de Afundamento Oriental.

Lago Vitória, na região central do Grande Vale do Afundamento. Imagem by NASA (http://visibleearth.nasa.gov/view_rec.php?id=709) [Public domain], via Wikimedia Commons
Lago Vitória, na região central do Grande Vale do Afundamento. Imagem by NASA (http://visibleearth.nasa.gov/view_rec.php?id=709) [Public domain], via Wikimedia Commons
Grande inundação

Os geólogos acreditam que, se o alargamento do vale continuar, a região continuará afundando, e a tripla junção das placas tectônicas da África, da Arábia e Indiana vai se separar, permitindo que o Oceano Índico inunde a área para separar o Chifre da África do continente e fazer dela uma ilha gigantesca – quase três vezes maior que Madagáscar, que fica bem longe, ao sul, ao largo do litoral oriental do continente.

Além de tremores de terra e atividades vulcânicas, os lagos do interior do vale indicam o intenso processo geológico em andamento. De tempos em tempos, por exemplo, o Lago Natron, na fronteira entre Tanzânia e Nairóbi, dá sinais da atividade subterrânea.

Fissuras na crosta terrestre, no fundo do Natron, fazem com que gêiseres extravasem, expelindo substâncias alcalinas que vêm do interior da crosta e mancham as águas na superfície normalmente límpidas do lago com tonalidades que vão do branco ao vermelho.

Natureza pode surpreender

O processo de formação do novo oceano é lento para nosso ritmo. Em alguns locais da fenda, os dois lados do vale se afastam ao ritmo de 2cm ao ano – perceptíveis apenas para instrumentos científicos de medição. Os geólogos estimam que o novo oceano estará completamente formado daqui a uns 10 milhões de anos.

Contudo, a natureza pode surpreender e as coisas eventualmente se antecipam. Isso aconteceu em 2005, quando um rasgo enorme no solo surgiu ao curso de alguns dias, durante erupção do vulcão Dabbahu, na região de Afar.

Tudo começou com tremores de terra que duraram 11 dias e sacudiram o Chifre da África. Dois dias depois, a 26 de setembro, a terra tremeu.  O vulcão Dabbahu explodiu e uma enorme fissura de 500m de comprimento, 60 de fundura e até 100 de largura rasgou o deserto.

Hoje, a fenda tem uns 60km de comprimento e eventualmente deverá se encher e água salgada. Como este é um processo que normalmente acontece apenas no leito oceânico, deixou os geofísicos perplexos.

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