O maior estrondo da Terra

Pavorosa visão do que que foi a erupçãõ explosiva do vulcão Krakatoa. Imagem: Wikipedia.
Pavorosa visão do que que foi a erupçãõ explosiva do vulcão Krakatoa. Imagem: “Krakatoa eruption lithograph” por Lithograph: Parker & Coward, Britain.*

 

No dia 27 de agosto de 1883, a ilha de Krakatoa, formada pelos cones dos vulcões Rakata, Danan, e Perbuwatan, de quase dois mil metros de altitude e uma caldeira monstruosa com 16km de diâmetro, explodiu e voou literalmente pelos ares no que é considerado, até hoje, o maior estrondo natural ou feito pelo homem já registrado nas crônicas da Terra em tempos históricos.

Em uma erupção violenta, o vulcão liberou energia equivalente a 100 das mais poderosas bombas de hidrogênio, detonadas simultaneamente. Tanta energia desprendida no mesmo lugar desintegrou dois terços da ilha de 28,9 km². Esse imenso volume de material desmoronou e afundou, gerando uma nova caldeira e originando um tsunami gigantesco.

Apenas fumaça e uma saliência de rochas calcinadas, no mar, permaneciam visíveis no que era terra firme e paraíso de milhares de espécies animais e vegetais.

Krakatoa, localizada no estreito de Sonda, entre as ilhas de Sumatra e Jacarta, na Indonésia, originou-se como estratovulcão que cresceu pelo acúmulo de lava e piroclastos. O colapso de uma caldeira, em 416 d.C., destruiu o edifício ancestral de Krakatoa, para formar uma nova caldeira de 7 km de largura. As atuais ilhas de Verlaten e Lang, estendendo-se como semiarcos em volta da região vulcânica, se formaram sobre o que restou desse antigo vulcão.

Mais tarde, formaram-se, de norte para sul, os cones Perboewatan, Danan e Rakata, que se elevaram juntos para criar a ilha que explodiria em 1883. O responsável direto pela erupção foi o cone Rakata.

O colapso paroxismico de Perboewatan e Danan

O cone Rakata entrou em erupção ao alvorecer, precisamente às 5h30. Os moradores da então Batavia, hoje Jacarta, 160 km a sudeste do ponto quente, despertaram com um solavanco provocado pela enorme explosão.

Enquanto a população aterrorizada procurava desesperadamente proteção aglomerando-se sob um céu repentinamente negro como a meia-noite, mas iluminados por flashes de assustadores relâmpagos originados por tempestades elétricas poderosas, oriundas da erupção, uma segunda explosão se fez ouvir. Então, veio o indescritível rugido da onda de choque, que derrubou casas e árvores como dominós.

Krakatoa era um tipo potencialmente explosivo de vulcão. Contudo, ficou pior. Bem fundo, na base, onde a terra se arrebentou, milhões de toneladas de água do mar jorraram para dentro da crosta profunda e incandescente.

Explosões misteriosas

O resultado foi um encontro avassalador de forças descomunais: o mar, se tornando vapor superaquecido e em expansão violenta, e a onda de choque de cima para baixo, através do corpo da ilha, desintegrando sua maior porção em uma cataclísmica demonstração de poder da Natureza.

Nuvens negras de cinzas e flamejantes blocos de pedra púmice e pedra obsidiana do tamanho de mesas foram arremessados a mais de 40 km de altura na atmosfera na velocidade de um foguete.

A maior parte da superfície da ilha desmoronou para as entranhas do mar com o colapso da caldeira, levando junto os cones Perboewatan e Danan que, desintegrados, afundaram. Restaram apenas vestígios de Rakata, agora uma ilhota em forma de arco abraçando o lado sul da caldeira submersa.

Quatro horas mais tarde, a polícia na ilha Rodriguez, 4,2 km a sudoeste, no Oceano Índico, quase dois terços da distância até a costa oriental da África, registrou sons que descreveu como de “armas pesadas”

Moradores de Alice Springs, no interior da Austrália, 3,7 km a sudoeste, também ouviram sons estranhos de uma explosão vinda de noroeste – um mistério para eles. Navios e vilas em um raio de 480 Km de Krakatoa, onde ficou escuro como breu, foram golpeados por rochas incandescentes e cinza em brasa que caiam do céu.

Tímpanos rompidos

Tripulantes combateram incêndios de embarcações provocados por uma chuva de projéteis ardentes de vários tamanhos. Quem estava em um raio de 15 km do vulcão teve seus tímpanos rompidos. O barulho chegou até as Filipinas e Índia.

Outros tiveram queimaduras. Em terra, pessoas foram mortas por cinzas incandescentes levadas por sopros de ar poderosos. Esse material perdeu velocidade enquanto que esfriava e choveu no solo, formando uma camada espessa.

Mais destrutivo foi uma onda gigantesca que se formou no oceano, engendrada pela erupção. A enorme muralha de água acelerou em todas as direções, inundando litorais próximos como um tsunami majestoso com 38,1m de altura que varreu a costa de Java, Sumatra, Celebes e Borneu, nivelando cidades inteiras

Em regiões como tão distantes quanto a Austrália, Índia e Japão, a onda gigantesca tornou minúsculas e insignificantes grandiosas construções humanas, como docas e embarcações. O tsunami passou pelo Cabo Horn, o ponto mais ao sul da América do Sul, a 645 km/h.

No dia seguinte ao desastre, depois de viajar por mais de 17.700 km, causou puxões nas amarras de navios no Canal da Mancha, que separa a França da Inglaterra.

Elevação calcinada

A sucessão de erupções e explosões durou 22h. O vulcão não parou de cuspir lava e houve novas erupções durante todo o ano. Quando tudo terminou, mais de 36.000 pessoas estavam mortas. Três centenas de vilas indonésias desapareceram e 6.000 embarcações foram esmagadas.

Ao longo do ano seguinte, aerossóis oriundos da explosão circularam o globo terrestre, provocando crepúsculos ao mesmo tempo espetaculares e estranhos.

Visto de nordeste, a elevação calcinada no meio do mar se tornou hoje uma pequena montanha – mas ainda assim, uma fábula do que foi a ilha Krakatoa. Para noroeste, onde a maior parte da ilha se desintegrou em 1883, a face de Rakata é um penhasco de cerca de 800 m, do nível do mar ao cume.

Pressão crescente

Para o sul, o declive em direção ao mar é mais gradual. Contudo, mais próximo, abaixo, um sonar encontra mais profundidade.

Nessa região, está a gigantesca caldeira sob as águas, medindo 9,6 km de largura por 304,8 m de fundura, que restou da erupção. Apenas algumas gerações atrás, essa depressão gigantesca era terra sólida, que se erguia centenas de metros acima do nível do mar.

Atualmente, o complexo vulcânico é constituído pela caldeira submersa, ladeada pelas três ilhas de Verlanen, Lang e Rekata. No centro, ergue-se Anak, que surgiu em uma erupção submarina em 1927 entre os cones desaparecidos de Danan and Perbuwatan, e cresce desde então, ao ritmo de 5 cm ao ano.

O soerguimento do Anak (Filho de Krakatoa, em dialeto local), se deve ao acúmulo de piroclastos oriundos de sucessivas erupções de fraca intensidade. Contudo, indica que mais rocha, parcialmente derretida, sobe do manto, nas profundezas da Terra, para encher completamente uma imensa câmara magmática mais acima – que por sua vez, está pressionando o subsolo.

Contudo, até quando a região será capaz de suportar a pressão crescente precursora da próxima grande erupção, ninguém sabe.

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“Krakatoa eruption lithograph” por Lithograph: Parker & Coward, Britain; Original uploader was Twinsday at en.wikipedia – Image published as Plate 1 in The eruption of Krakatoa, and subsequent phenomena. Report of the Krakatoa Committee of the Royal Society (London, Trubner & Co., 1888). Transferred from en.wikipedia; transferred to Commons by User:Ranveig using CommonsHelper.. Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Krakatoa_eruption_lithograph.jpg#mediaviewer/File:Krakatoa_eruption_lithograph.jpg

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