Incrível imutabilidade do que é mutável

Como as flores deste lírio, parte da realidade que a gente conhece não dura para sempre: as coisas mutáveis se submetem à imutabilidade transcendental. Foto: Tom Lima
Como as flores deste lírio, parte da realidade que a gente conhece não dura para sempre: as coisas mutáveis se submetem à imutabilidade transcendental. Foto: Tom Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A realidade, enquanto tal, é intrinsecamente imutável, pois ela é o que é. A realidade existe, isso é um fato e isso não muda. Ponto final.

Contudo, essa certeza traz embutida uma contradição, um paradoxo. Pois em seu aspecto rotineiro, palpável, a realidade é, sim, mutável, pois ela está, inexoravelmente, se modificando ao longo do tempo.

A primeira vez que me questionei sobre a mutabilidade das coisas foi quando era uma criança de cinco, seis anos, brincando nas vizinhanças de casa na ainda suburbana Teresina (PI), com meu irmão e primos.

Num dos cruzamentos de duas ruas, ainda de terra, havia uma pequena extensão ligeiramente elevada, não propriamente de areia solta, como nas proximidades, mas de chão duro, como de argila compactada depois de molhada.

Verdade não resistiu a ciclos de tempos maiores

Notei que a tal elevação continuava lá ao longo dos anos. Explico: todos os anos, entre novembro e abril, águas das chuvas cobriam e lavavam o chão desprotegido e a enxurrada arrastava a areia solta, modificando o leito das ruas.

Contudo, a elevação de terra não era removida – o que, para mim, era um alívio. Afinal, talvez por observar tanto aquele trecho, já me sentia dono dele. Minha conclusão óbvia era que a rua, no fundo, nunca mudava.

Mas essa era uma verdade que não resistiu a ciclos de tempo maiores que dois, três ou mais anos, que correspondiam, acho, ao tempo que passei observando a persistência da tal elevação. Um dia, porém, ela sumiu de lá, depois da passagem de uma motoniveladora.

E, mais cedo ou mais tarde, foram feitas várias modificações necessárias no leito das ruas que culminariam com sua pavimentação asfáltica, décadas depois.

Registros terminaram sendo frustrantes

Essas intervenções apagaram, para sempre, a elevação de terra dura que, agora, só persistia em minha memória exclusiva, pois não havia partilhado minha angústia com meus colegas de infância.

O fato é que, talvez com choque, descobri que a realidade muta, com o tempo. Desde então, experimentei um drama que me acompanhou: a necessidade, quase intransponível, de registro.

Talvez isso explique por que gostava tanto – e talvez ainda goste – de guardar trecos, coisas que já não me serviam mais, ou que servissem, de fato, como o que eram – meros registros.

Adolescente, descobri a maravilha do registro fotográfico, da impressão e da gravação de sons e passei a manter registros devidamente catalogados de minhas atividades.

Mesmo isso, porém, foi uma experiência frustrante, pois os livros, se não cuidados adequadamente, poderiam se deteriorar, com o passar dos anos. Em suma, não eram eternos.

Fotos impressas perdiam, com o tempo, as cores originais e mesmo os negativos poderiam ser atacados por fungos, com a destruição das imagens ali registradas.

Mesmo os sons que registrei em dezenas de fitas magnéticas, do tipo cassete, estão virtualmente inservíveis com a revolução dos arquivos digitais.

Imutabilidade da realidade mutável se mostrou perene

E, depois, os filmes em rolo foram substituídos por fotos digitais, um tratamento virtual da imagem registrada que podia, simplesmente, ser deletada instantaneamente, para sempre.

Mais tarde, já adulto, perdi, para os cupins, muitos registros escritos que vinha guardando ao longo dos anos, desde a infância e a adolescência. Eram sobretudo escritos sobre mim mesmo, e sobre a realidade que observava, incluindo um tratado sobre o tempo.

Chocado com a verdade dolorosa de que as coisas de que gostava não eram para sempre, buscava respostas para as perguntas não respondidas nas teorias que explicavam a origem, a evolução e destino da realidade, do universo, pois tudo se encaixava no mesmo contexto.

Então, terminei percebendo, anos depois, que havia algo perene, e esse algo era o fato em si, a constatação, a existência da mutabilidade intrínseca, inexorável.

Ou seja, se a realidade mutava ao longo do tempo, a lei que regia a mutabilidade era imutável, pois todas as coisas, sem exceção, estavam aparentemente sob sua égide, do passado ao futuro, passando pelo presente.

A mutabilidade transcendente era – é, será – perene e essa descoberta me encheu de alegria. Essa percepção aconteceu nos anos 1990, enquanto escrevia uma coluna semanal em um jornal diário, onde trabalhava como repórter, redator e, depois, editor.

Ao conjunto teórico resultante dessas elucubrações filosóficas dei o nome de cosmoteoria, que depois evoluiu para teoria refracionária.

Uma versão pessoal para a teoria do tudo

O fato de a realidade mutável ser regida pela imutabilidade era um paradoxo, pois o real e a lei que o regia deviam ser, ambos, ou mutáveis ou imutáveis.

O aparente paradoxo foi resolvido elegantemente com o conceito da conformação extremada, resultante do princípio não-absoluto.

E, no fim das contas, o conjunto de dados que consegui desenvolver me levou a formular a concepção de um universo refracionário, que culminou com minha própria versão de uma teoria de tudo, que chamei de Campo Cósmico Unificado.

O resultado acalentou meu espírito com uma solução convincente para minha antiga angústia resultante da não compreensão de como a realidade funcionava.

A teoria refracionária, com seu princípio não-absoluto, é minha própria explicação para as coisas, a realidade, o Universo e o próprio Cosmo, serem o que são.

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