Filete precioso de água

 

Filete de água bem aproveitado: líquido que escorre da torneira    faz primeiro enxágue em pires e segundo em xícara. Foto: Tom Lima
Filete de água bem aproveitado: líquido que escorre da torneira faz primeiro enxágue em pires e segundo em xícara. Foto: Victor Santiago

Peróxido de hidrogênio foi detectado em geladíssimas nuvens de gás e poeira, no espaço interestelar, onde novas estrelas estão sendo criadas.

Molécula composta por dois átomos de hidrogênio e dois átomos de oxigênio, o peróxido de hidrogênio é vinculado tanto à origem da água como de oxigênio.

A molécula deve se formar quando átomos de hidrogênio, o elemento mais comum do Universo, se junta ao oxigênio, na superfície diminuta de frios grãos de poeira interestelar – na verdade, areia.

Talvez a água surja, no Universo, quando vento e radiação, soprados com violência por estrelas em formação, ou comprimem e aquecem gás e poeira, nas vizinhanças, contendo peróxido de hidrogênio.

Essa energia necessária também pode vir de supernovas, ocorrendo mais distante. Supernovas são explosões de estrelas azuis massivas.

A água é farta. Existe em quantidades imensas e é um elemento inesgotável. De fato, foram detectadas vastas quantidades de vapor de água em nuvens moleculares. Isto é, nuvens formadas por moléculas de hidrogênio, em vias de se tornarem estrelas.

Oceanos de água no espaço interestelar

Gigantescos oceanos de água foram encontrados na distância gelada de estrelas jovens, mais precisamente, nos discos de gás e poeira, em volta desses luminares.

Sob efeito da gravidade e do movimento orbital em torno de protoestrelas, poeira contendo moléculas de água se condensa em planetésimos.

Esses objetos acabam se juntando para formar astros ainda maiores, os planetas. Planetésimos em órbita mais distantes de suas estrelas, que não coalesceram para formar planetas, constituirão o manancial de meteoritos, asteroides e cometas dos novos sistemas planetários.

Recentes estudos apontam os meteoritos e seus primos maiores, os asteroides, como a provável fonte da água existente hoje, em nosso mundo.

Farta no espaço interestelar, escassa na Terra

Esses corpos foram tanto atraídos pelo objeto que seria a Terra, durante a formação do Sistema Solar, 4,5 bilhões de anos atrás, como mais tarde, durante o período chamado Grande Bombardeio Tardio, que teve seu pico 3,9 bilhões de anos atrás.

Nosso mundo contém muita água, cerca de 1,36 bilhão de quilômetros cúbicos, cobrindo uns bons 70% de sua superfície. Contudo, quase 98% dela não são potável e formam os oceanos.

Portanto, só uns 2% são água boa para consumo. Estima-se que 0,01% é acessível por estar na superfície, seja em lagos e rios. O restante está em aquíferos, no subsolo, geralmente de difícil acesso.

Do ponto de vista dos seres humanos, criaturas de pequena estatura, a água potável, nos rios e lagos, e nas torneiras que temos em casa, parece ser uma quantidade imensa, inesgotável.  Contudo, a água da Terra é, sim, finita. Pelo menos para o tamanho da nossa população, crescente.

Recurso natural mais precioso

Esqueça todo o resto. Nenhum recurso natural é mais precioso e importante que a água. O consumo per capita de água, principalmente nas nações industrializadas, cresceu exponencialmente, nos últimos dois séculos, devido ao aumento populacional e geração de riquezas.

As mudanças climáticas em curso agravam o problema. Já há partes do mundo que chegaram a uma crise severa, devido às rápidas mudanças climáticas. Em alguns lugares, houve redução das chuvas em até 25% nos últimos 25 anos.

Estudiosos do assunto falam em futuras guerras de água, entre nações distintas, e até no surgimento de guerras internas, na forma de uma nova luta de classes relacionada à água.

A explicação é que, enquanto a população cresce, há menos água por pessoa. Os ricos demandarão mais recursos para acomodar seu estilo de vida e se apropriarão da água e de outros recursos dos pobres, produzindo conflitos.

Pequena atitude, grande gesto

Quando a gente tem abastecimento normal em casa e deixa a água fluir à vontade, nem imagina que poderia  economizar. Essa verdade só é discernível quando a situação se inverte e percebe que, um simples filete, escorrendo da torneira, basta para fazer muita coisa.

Normalmente a culpa é da pressa. Na correria para fazer logo o que tem que ser feito, como tomar banho, escovar os dentes e lavar as mãos ao chegar da rua, acaba abrindo a torneira ao máximo . Termina nem se dando conta de que está usando mais água que o necessário e que o excedente está, na verdade, sendo desperdiçado.

Contudo, é normal se ter a visão “do outro lado”, quando uma situação adversa e inesperada acontece. No começo da manhã do dia 4 deste mês, um domingo, notei um vazamento na tubulação que abastece um tanque, no quintal, e arregacei as mangas, para reparar o problema.

Ao inspecionar o foco do vazamento, percebi que um cano havia se descolado de sua conexão, ambos em PVC, e que o reparo seria bastante simples e rápido.

Momento supremo de constatação

De fato, tudo que tive que fazer foi fechar o registro, enxugar e lixar a conexão e a extremidade do cano, aplicar cola específica, que mantenho no estojo de ferramentas domésticas, e unir as duas partes.

Enquanto esperava passar uma hora, antes de submeter o local do reparo à pressão normal da água, como o fabricante do adesivo recomenda, aproveitei para lavar a louça do café da manhã, aliviando a carga de trabalho de minha mulher, que amamentava nossa filha, de dois meses e meio.

Aí é que veio a melhor parte, a da constatação. Abri a torneira da pia da cozinha e percebi que ainda havia água sob certa pressão, formando um filete que escorria em direção ao ralo.

Talvez alguém mais apressado não tivesse encarado a tarefa, contando apenas com o filete de água, mas como sou paciente, foi o que fiz. E deu certo.

Não sei calcular quanto economizei, em relação à água que teria disponível em condições normais de abastecimento.  Mas, garanto que foi bastante. E estou certo de que fiz o trabalho muito bem feito.

Sim, é possível fazer todas as tarefas domésticas que demandam consumo de água contando apenas com filetes escorrendo das torneiras. Para o bem do nosso mundo e das futuras gerações.

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