Setor norte da Galáxia no horário nobre!!

O setor norte fica à direita do bojo central, nesta composição. Imagem: By ESO/A. Fitzsimmons (http://www.eso.org/public/images/potw1320a/) [CC BY 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0)], via Wikimedia Commons

O setor norte fica à direita do bojo central, nesta composição. Imagem: By ESO/A. Fitzsimmons (http://www.eso.org/public/images/potw1320a/) [CC BY 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0)], via Wikimedia Commons

Voltado para o sul, em pé no início da noite, no terraço propositalmente escuro de minha casa, olho para cima e vejo estendido no céu, de uma extremidade a outra, a faixa luminosa de estrelas da galáxia da qual a estrela mais próxima é parte.

A gente costuma associar o horário nobre ao tempo que passa diante da TV, nas primeiras horas da noite. Contudo, o céu livre de nuvens reserva um espetáculo impressionante, nesta época do ano, quando é possível apreciar e curtir, de uma tacada só, o esplendoroso setor norte da Via Láctea.

E, mesmo que esteja nublado, há outras opções. Leia em Janela para o Cosmo. Do meu ponto de vista, no terraço, dá para ver das estrelas Alfa e Beta, do Centauro, ao aglomerado estelar Plêiades.

Mas, aqui, vai um apelo. Deixe o conforto da sala de estar e vá para o quintal. Vale o preço do esforço. Além disso, as imensas estruturas cósmicas influenciam nossas vidas, mais do que imaginamos, para o bem e para o mal. Ou o céu é sagrado e, ao mesmo tempo, profano.

O melhor é que, para essa experiência, não é preciso equipamento algum, nem binóculos, nem telescópio. Bastam os olhos. Só umas dicas. É bom estar longe das luzes da cidade, embora algo que funcione como anteparo para a luz vinda de um poste na rua, por exemplo, possa ajudar.

“Isso” é importante, sim

Também, é bom reservar algum tempo, sem precisar ser incomodado, e sem qualquer urgência pendente. Relaxe e se dedique ao momento. Caso contrário, você se sentirá tentado a achar que “isso” não tem tanta importância.

Além disso, logo que se expor ao escuro, lembre-se que levará uns 15 minutos para que suas pupilas se dilatem o bastante e seus olhos se adaptem à situação. Finalmente, é bom notar que, quanto mais se olha, mais detalhe se vê.

O magnífico setor norte da galáxia toma praticamente todo o céu no atual horário nobre, como uma faixa esbranquiçada que se estende do horizonte sudeste ao horizonte noroeste.

Nebulosa de Órion. A gente não vê assim, ao olho nu. Contudo, isso é o que ela é. Imagem por NASA, ESA, M. Robberto (Space Telescope Science Institute/ESA) and the Hubble Space Telescope Orion Treasury Project Team [Public domain], via Wikimedia Commons

Nebulosa de Órion. A gente não vê assim, ao olho nu. Contudo, isso é o que ela é. Imagem por NASA, ESA, M. Robberto (Space Telescope Science Institute/ESA) and the Hubble Space Telescope Orion Treasury Project Team [Public domain], via Wikimedia Commons

Ele mede cerca de 50.000 anos-luz de diâmetro, quase toda a metade do disco galáctico (o setor sul está abaixo da linha do horizonte, juntamente com o bojo/barra central da galáxia e portanto, invisíveis neste horário.

Se você puder esperar para um pouco mais tarde, de 22 horas em diante, poderá ver o setor central e parte do setor sul.

Esta faixa leitosa, de onde vem o nome “via láctea”, na verdade, é parte dos braços espirais da galáxia, vistos de perfil.

Aqui, vale lembrar que a Via Láctea é tridimensional. Logo, algumas estruturas estão mais próximas. Outras, mais distantes, mergulhadas da imensidão do espaço.

Galáxia tridimensional

A grosso modo, a faixa esbranquiçada é formada pela luz combinada de bilhões de estrelas muito, muito longe, tão longe que, a olho nu, não dá para distinguir esses luminares individualmente.

Estrelas mais próximas são as mais luminosas e distinguíveis, sobrepostas à faixa esbranquiçada, e mais próximos a ela.

Esses astros mais próximos também podem ser vistos, cintilando, fora da faixa. As mais afastadas dela, tanto de um lado como de outro, fazem parte do braço espiral no qual a mais próxima de todas, o Sol, está mergulhado.

Além de estrelas, os braços espirais contêm gás e poeira, reunidos em imensas nuvens que bloqueiam a luz emitida por objetos mais distantes e ao fundo.

Essas nuvens são essas manchas escuras irregulares que se espalham ao longo da faixa esbranquiçada e luminosa.

Elas ajudam a compor o senso de profundidade, já que tanto ficam na frente de estrelas ao fundo, portanto, mais longe, do nosso ponto de vista, como denunciam estrelas mais próximas, quando sobrepostas a elas – logo, mais próximas.

Detalhes depois da visão geral

Depois dessa visão superficial, a gente começa a perceber detalhes menores. Partindo de sudeste, algumas das estrelas mais brilhantes do setor norte, visíveis nesse horário inicial da noite, são Alfa e Beta, da constelação do Centauro.

A nuvem que contém Eta Carina Nebula se destaca avermelhada, no centro desta fotografia. Imagem por SO/B. Tafreshi (twanight.org) (http://www.eso.org/public/images/potw1246a/) [CC BY 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0)], via Wikimedia Commons

A nuvem que contém Eta Carina Nebula se destaca avermelhada, no centro desta fotografia. Imagem por SO/B. Tafreshi (twanight.org) (http://www.eso.org/public/images/potw1246a/) [CC BY 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0)], via Wikimedia Commons

Alfa é a estrela mais próxima do Sol e na verdade, são três sóis, orbitando uma em torno da outra. Alfa e Beta apontam para o Cruzeiro do Sul e sua nebulosa escura, Saco de Carvão.

Um pouco mais adiante, a gente vê o brilho difuso da gigantesca nuvem de gás Eta Carina a cerca de 7.500 anos-luz, sobreposta à faixa leitosa do setor sul.

Esta nebulosa é uma gigantesca fábrica de estrelas, na qual está imersa o novato sistema Eta Carina, que tem pelo menos duas estrelas. Uma delas está em vias de explodir, como uma supernova.

Mais adiante, ainda, destaca-se Messier 41, ou NGC 2287, um bonito aglomerado estelar aberto, na constelação de Cão Maior. Fica a 25,5 anos-luz de distância e tem cerca de 100 estrelas.

Um pouco mais à direita, já próximo ao horizonte oposto, a noroeste, a gente nota a constelação de Órion, com sua impressionante nebulosa do mesmo nome.

Também chamada M42 ou NGC 1976, a nebulosa é também uma fábrica de estrelas, a uns 1.500 anos-luz do Sol. Algumas das estrelas mais novas formam o famoso Trapézio.

Finalmente, já próximo à borda do setor norte e perto da linha do horizonte, dá para perceber o aglomerado estelar aberto Plêiades, também chamado Sete Estrelas, embora tenha cerca de 400 sóis azulados.