Riscos do desvio de asteroides

 

Grande Eros: manipulação de asteroides pode ser bastante perigoso para a Humanidade. Imagem: "433eros" por NASA/NEAR Project (JHU/APL). Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons

Grande Eros, um asteroide apolo: manipulação desses objetos pode ser bastante perigoso para a Humanidade. Imagem: “433eros” por NASA/NEAR Project (JHU/APL). Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons

Os riscos do desvio ou da mineração de asteroides são evidentes. Qualquer iniciativa que homem tomar com relação a esses objetos será uma faca de dois gumes. Jogar com asteroides é, literalmente, cutucar onça com vara curta.

Já tive oportunidade de manifestar aqui minha preocupação, mas também minha indignação e angústia quanto aos asteroides. Preocupação, porque esses objetos siderais são uma das maiores ameaças à nossa civilização.

Indignação e angústia, devido à falta de uma ação dos líderes mundiais para conter, de alguma forma, a ameaça, que é concreta, real. Iminente, de certa forma.

Eles são uma espada de Dâmocles, não só para a civilização, que começamos a erigir há milhares de anos, à custa de guerras, doenças e muito sofrimento. Na verdade, são um risco para toda a biosfera e, em suma, para todo o planeta.

Os asteroides são objetos sólidos, rígidos, geralmente rochosos, mas também metálicos, ou uma mistura de minerais silicatos e metais. E até água. E, dependendo do tamanho, podem causar um estrago considerável.

De fato, o tamanho do objeto importa mais que o local onde caia. E é mais provável que caia na água, porque a maior parte da superfície da Terra, ¾ dela, é coberta por água.

Talvez os asteroides mais prováveis de cair na Terra são os chamados Apolo. O que caracteriza esse grupo de asteroides é sua órbita, que os leva a um ponto mais distante no Cinturão de Asteroides, entre Marte e Júpiter, e o mais perto, dentro da órbita da Terra. E aí está o perigo.

Choque resultará em uma explosão gigantesca

Já se tem uma visão aproximada do que significa o impacto de um asteroide Apolo com 10 km de diâmetro. E se um asteroide do tamanho de uma cidade, como esse, cair num oceano, por exemplo, levantará uma muralha colossal de água que avançará em todas as direções até o interior dos continentes, para destruir tudo em seu caminho.

O vagalhão, com centenas de metros de altura, terá tanta energia que dará a volta ao mundo e retornará ao ponto de origem, várias vezes.

E não é só. A porção frontal de um asteroide de 10 km tocará o fundo sólido do oceano depois de afastar toda a água do local do impacto, e o choque resultará em uma explosão gigantesca, que vaporizará uma quantidade enorme de água e rochas, que se espalharão na atmosfera.

Um objeto desse tamanho dificilmente explodirá no ar, porque é tão grande que sequer ficará totalmente envolto pela atmosfera. De fato, quando a porção frontal de um asteroide de 10 km atingir a superfície da água ou de terra firme, ou uma região litorânea, sua porção posterior ainda estará mergulhando nas camadas superiores da atmosfera terrestre.

O mais certo é que, se não cair no mar, o objeto caia em terra firme. Como acontece no caso da queda num oceano, objeto tão volumoso deslocará um volume igualmente descomunal de ar.

Planeta Azul irremediavelmente arruinado

Depois, a parte frontal tocará e comprimirá o solo. A tremenda quantidade de energia cinética ou de movimento do objeto se acumulará na zona de compressão e pressionará sua massa de volta.

Contudo, o corpo do asteroide não resistirá e se desintegrará. Então, toda a energia será liberada na bola de fogo de uma explosão descomunal equivalente a 100 milhões de megatons, milhares de vezes mais intensa que a maior explosão já vista na Terra, a detonação do vulcão indonésio Krakatoa, em 1883.

Não dá nem pra imaginar o que isso significa. Mas um evento cósmico dessa magnitude pode muito bem  acontecer. Claro que as consequências pós-impacto não poderão ficar restritas ao local do choque.

Tamanha quantidade de energia liberada terá que se dissipar e só o fará viajando milhares de quilômetros, em todas as direções. Como a Terra é relativamente pequena para um evento dessa proporção, os efeitos darão várias voltas em torno do globo.

E, ao fazê-lo, será devastador. O fato é que o meio ambiente do Planeta Azul estará irremediavelmente arruinado, por um longo intervalo de tempo.

Se sobreviveremos ao choque, é uma incógnita. Pode até ser que poucos de nós, os mais bem preparados, sobrevivam. Porém, quando os sobreviventes conseguirem sair de seus refúgios, encontrarão um mundo inteiramente devastado. De fato, a civilização teria que começar a se reerguer praticamente do zero.

Deflexão para uma rota de colisão com nosso mundo

A possibilidade de que tamanha catástrofe aconteça é, como disse acima, real. Asteroides existem aos montes, no espaço. Cerca de 9.000 objetos que passam perto da Terra já foram catalogados e tiveram suas órbitas determinadas com alguma precisão.

Muitos deles só foram descobertos quando já se afastavam, depois de passar bastante perto de nossa casa cósmica. Milhares são ainda desconhecidos e estão por ser descobertos.

Esses corpos espaciais representam um risco natural. De fato, objetos do tamanho de montanhas singram na imensidão vazia do Sistema Solar em órbitas mais ou menos estáveis, mas a interação gravitacional entre os planetas, e entre estes e o Sol, ora e outra põem dois deles em rota de colisão.

O impacto entre dois asteroides pode resultar na dispersão de grandes fragmentos que, cedo ou tarde, serão atraídos pela atração gravitacional do Sistema Terra-Lua.

Mas isso não é tudo. Asteroides são uma faca de dois gumes. E perigosa. Mesmo a tentativa de modificar a rota de um asteroide potencialmente ameaçador significa um risco tremendo, pois há a possibilidade de a tentativa de deflexão realmente desviar o objeto para uma rota de colisão com nosso mundo, na mesma órbita ou na próxima.

Rebocar um asteroide, um plano bastante perigoso

Mais uma vez, não é tudo. Pior ainda, o instinto predador de recursos está para levar o homem a mexer com uma forma de perigo que, aparentemente, está quieta, no seu canto.

Nada contra o capitalismo, que a meu ver, é a única mola propulsora conhecida que, mesmo sob os trancos e barrancos das crises globais, ainda é capaz de desenvolver a civilização e melhorar a vida das pessoas.

Contudo, o capitalismo, que já devorou a polpa e agora rói o caroço da Terra, pensa em começar a comer os asteroides.

Bem, é verdade que um asteroide pode conter água e metais cobiçados, como ouro e platina. E esses objetos são vistos, por certos grupos de empresários empreendedores, como a próxima fronteira mineralógica.

De fato, já há grupos com dinheiro e disposição suficientes para começar a, pelo menos, planejar brincar com asteroides. A ideia é rebocar um asteroide desses para uma órbita ainda mais perto da Terra, onde seria minerado.

Certamente, é um plano ousado, mas também bastante perigoso. Ao mexer com asteroides, a humanidade estará, literalmente, cutucando a onça com vara curta. Ou brincando com fogo.