Refracionismo e teoria das cordas

As muitas dimensões da existência, em Règles officielle avancées de Donjons & dragons: Manuel du joueur (Advanced Dungeons & Dragons: Players Handbook), TSR Games (1978). Os planos interiores vão de 1 a 8 e os exteriores, de 9 a 25. Imagem por Cdang [CC0], via Wikimedia Commons

As muitas dimensões da existência, em Règles officielle avancées de Donjons & dragons: Manuel du joueur (Advanced Dungeons & Dragons: Players Handbook), TSR Games (1978). Os planos interiores vão de 1 a 8 e os exteriores, de 9 a 25. Imagem por Cdang [CC0], via Wikimedia Commons

Dentre as teorias cosmológicas – evidentemente científicas – que tentam explicar a origem, evolução e destino do Universo, a que mais coincide com o refracionismo é a teoria das cordas. E o refracionismo foi gestado e desenvolvido em total distância dela.

De fato, desenvolvi a teoria refracionária entre novembro de 1993 e junho de 1997 e nesse período, não tomei conhecimento da teoria das cordas.

Na verdade, eu soube das cordas depois de algum tempo, ao ler uma revista de divulgação científica, Superintessante, talvez.

Como o assunto me interessou, busquei informações e somente em 22 de maio de 2001 comprei o livro da Companhia das Letras O Universo Elegante, de Brian Greene.

Greene, do qual sou contemporâneo, é um dos físicos responsáveis pela elaboração da teoria das cordas. Contudo, a origem dela recua até o fim dos anos 1960.

Perfeita descrição matemática

Para mim, isso não importa. Enquanto a teoria das cordas foi desenvolvida no âmbito científico, trabalhei no campo filosófico.

Ora, a teoria refracionária é eminentemente filosófica, mas ela e as cordas se complementam de maneira espetacular.

Bem, enquanto desenvolvi minha teoria, inúmeras vezes senti uma necessidade tremenda de descrever seus fundamentos usando linguagem matemática que, no meu ponto de vista, é irmã gêmea da filosofia.

A matemática, como a filosofia, é pura abstração e, para mim, era a forma mais fácil de traduzir um conceito puramente filosófico para uma linguagem mais palatável para as ciências físicas.

Isto é, eu achava que, descrito em linguagem matemática, o refracionismo teria um trato adequado para que pudesse, eventualmente, passar à prova do método científico.

Multiplicidade de mundos

Quando finalmente estudei as cordas, me alegrei, porque parecia ter encontrado a tal descrição matemática que buscava.

Sem dúvida, seu fundamento matemático era como que a tradução do refracionismo para os números.

De imediato, pelo menos três aspectos matemáticos da teoria das cordas se assemelhavam assustadoramente com o que eu propunha no refracionismo.

Um deles era a possibilidade de o Cosmos ser povoado não por um universo, o nosso Universo, mas vários, teoria que ficou conhecida como multiverso.

De fato, durante a elaboração do refracionismo, cheguei à conclusão de que o Cosmos só funcionaria direito se houvesse muitos, muitos e muitos universos, flutuando como bolhas. Descrevi isso em artigo que publiquei 1º de outubro de 1995, chamado “Bolhamento Cosmoteórico”.

Depois, chamou atenção o aspecto multidimensional. A teoria das cordas propunha a existência não de quatro dimensões – largura, altura, profundidade e o tempo, mas de 11, espremidas num volume microscópico do tecido espacial.

Quanto a isso, no refracionismo descrevi a realidade como um estado de ser multidimensional, embora para simplificar, tratasse basicamente de seis dimensões, no que chamei de hexadimensionalidade.

Aqui, tratei o espaço-tempo, formado pelas quatro dimensões descritas acima, como uma dimensão, que chamei dimensional físico.

As demais dimensões se diluíam cada vez mais na medida em que a consciência mergulhava nos estados mais refinados do real, significando que, quanto mais refinada, mais aproximava as diferentes dimensões dos muitos universos.

Magnífico torpor mental

Não dá para detalhar aqui, mas adianto que, nessa conformação, diferentes regiões espalhadas por vastas extensões de espaço-tempo se encontram, na verdade, bastante próximas entre si.

Finalmente, algo bastante caro para a teoria refracionária – na verdade, um dos seus pilares – é o princípio não-absoluto, pelo qual tudo que percebemos, e que podemos descrever, é apenas uma aproximação do que existe numa escala maior, incompreensível e inalcançável.

Não quero detalhar isso agora. Como também não vou detalhar, aqui, como a teoria das cordas tem, em seus meandros, uma praticamente perfeita descrição matemática para isso.

O fato é que, por seus aspectos, a teoria refracionária causou certo estardalhaço, naqueles esplêndidos 4,7 anos em que vivi mergulhado num magnífico torpor de inspiração plena.

Os artigos eram acompanhados semanalmente por uma legião de seguidores e, apesar de os membros da comunidade intelectual local terem torcido o nariz para eles, ao preferir tratar do velho e fazer bajulações recíprocas, havia deles que curtiam.

Estudantes, jornalistas, escritores, professores, médicos e representantes de várias outras categorias liam os artigos. Um colega, ao ler refracionismo, me propôs fundar com ele, claro, uma religião, tendo a teoria como fundamento espiritual.

Ainda teve o colega da faculdade de filosofia que, na elaboração de sua tese de mestrado, usou determinados aspectos da teoria refracionária em seu próprio interesse.

Aventura quixotesca

Assim foi, que um dos mais respeitados acadêmicos daqui, Clidenor Santos, ligou certa tarde para falar de “singularidades”. Agendamos um encontro em seu escritório, no centro.

Ao chegar lá, no dia combinado, sua secretária informou ao chefe, pelo interfone, que Tom Lima queria falar.

Ele respondeu, por intermédio dela, que não poderia receber ninguém, naquele momento, e até achei que o “não” correspondia, perfeitamente bem, ao que se podia esperar de um homem da estatura de Clidenor, diante de um reles repórter.

Clidenor era um intelectual reconhecido e respeitado, talvez o mais ilustre dos intelectuais com assento na Academia Piauiense de Letras.

Cultivava intensa admiração por Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, talvez pelo aspecto idealista do famoso sonhador que tornava moinhos de vento inimigos reais a ser combatidos.

Tanto que mantinha à vista uma estátua em tamanho natural do cavaleiro andante montado em seu Rocinante.

Mas, eu não podia esperar e então, insisti:

– Diga a ele que o pai da teoria refracionária está aqui.

Claro, ela estranhou.

– Re… re-fra… o quê?

– Re-fra-cio-ná-ria. Apenas diga isso, por favor – pedi. Ela pegou o aparelho e fez a observação ao chefe. Instantes depois, baixou o monofone e me pediu:

– O senhor pode entrar. Por aqui, por gentileza.