Primeira luz do meu telescópio

Visão frontal do meu telescópio, permitindo ver o espelho primário de 254mm ao fundo, com o suporte do secundário, o buscador e o focalizador.

Visão frontal do meu telescópio, permitindo ver o espelho primário de 254mm ao fundo, com o suporte do secundário, o buscador e o focalizador.

Neste terceiro e último post da série, conto como segui instruções de como montar um telescópio refletor em montagem dobsoniana. Os preparativos para a primeira luz do meu telescópio refletor de 25 cm, em montagem dobsoniana, com kit óptico comprado pela internet, foi um anticlímax. Tive sorte, pois o céu noturno estava limpo e estrelado.

Antes, eu tinha que concluir a montagem e deixar o telescópio pronto para o teste. Na edição de maio de 2002 da S&T, que tinha em casa, encontrei uma técnica, bastante simples, para construção de uma célula para espelho primário que se encaixava completamente nas minhas necessidades.

E, na edição de abril, do mesmo ano, da mesma revista, encontrei instruções para construção de um suporte curvo para espelho secundário que, pela sua simplicidade e resultado – fornecer imagens das estrelas sem os quatro raios clássicos, que resultam de uma montagem do tipo aranha, foi a que escolhi.

Bem, é desnecessário dizer que segui à risca ambas as técnicas. Até parafusos e porcas comprei nas medidas indicadas. Um item que pensei ser difícil encontrar, para montagem do suporte do secundário, uma régua de aço inoxidável, comprei até com facilidade surpreendente, em uma das papelarias de minha cidade de então.

Enviei o tubo para uma retífica

A montagem dobsoniana foi relativamente fácil, de fazer, principalmente quando a gente conta com um esquema bastante elucidativo, como o que encontrei no site Telescópios Astronômicos, de Sebastião Santiago Filho.

Facilita, também, contar com um carpinteiro engenhoso. Eu deixara um esquema com ele, com instruções para o suporte do tubo, mas quando voltei muitos dias depois, para ver o resultado, ele disse que tinha imaginado e feito algo melhor.

E era! O resultado é que a montagem ficou forte, sólida, resistente e surpreendentemente estável.

Para dimensionar o corpo do telescópio, isto é, o tubo, contei com o suporte técnico do construtor Sebastião Santiago Filho.

Minha opção foi por um cano de PVC. Tive que comprar 3 m de cano, pois as lojas não vendem um pedaço de 1,20 m, que era o que ele recomendou. Era um cano para esgoto, com 300 mm de diâmetro.

Depois de serrar o cano na medida certa, levei o tubo que seria meu telescópio a uma retífica. Era necessário,para acertar as extremidades do tubo.

De lá, levaria para uma oficina especializada em pintura de carros. Contudo, isso seria feito após o teste de primeira luz, que resolvi fazer antes de dar o acabamento.

No acabamento, a superfície externa do cano receberia o mesmo tratamento dado a uma carroceria de fibra de vidro, com um resultado simplesmente excelente.

Depois concluída a retífica, chegou a hora de instalar o kit óptico. Tive a assessoria necessária do Sebastião Filho. Eu não teria feito a montagem óptica sem sua ajuda. Ainda hoje me sinto muito grato.

Quanto colimei os espelhos já era início da noite

Meu kit de observação: o jogo de filtros, as duas oculares, duas barlows e um colimador. Foto: Tom Lima.

Meu kit de observação: o jogo de filtros, as duas oculares, duas barlows e um colimador. Foto: Tom Lima.

Várias vezes ofereci pagamento pela assessoria muito útil e ele não quis receber nada, um comportamento típico de alguém que ama a astronomia e deseja que outros compartilhem o mesmo prazer que observar o céu proporciona.

Meu grande espelho primário de 254 mm de diâmetro tinha curvatura parabólica, com distância focal de 1,200 mm e razão focal 4,7. Ele permite aumento mínimo de 38,1 X e máximo, com excelente resolução de 635 X, embora, com boas condições de visibilidade, possa expandir um pouco mais.

Contudo, evitei ficar a uma distância confortável desses extremos. Para tanto, comprei duas oculares Orion Sirius Plössl, uma de 26 mm, e outra de 6,3 mm, para aumento.

Comprei também duas lentes Barlow, também Orion. Uma delas é a Tri-Mag 3 X, e outra, uma Shorty-Plux 2 X.

O uso das duas oculares individualmente, e a combinação delas com as duas Barlow, permitiriam seis níveis de aumentos. São elas 46 X, 92 X, 138 X, 190 X, 380 X e 570 X.

Além disso comprei um jogo de seis filtros Orion, para observações planetária e lunar. São eles Sky Glow Broadband Light-Polution, Polarizador Variável, #80A Medium Blue, #25 Red, #58 Green, #15 Deep Yellow.

Por fim, comprei um grande buscador Orion 9 X 50, que é, por si só, um instrumento óptico maravilhoso. Para facilitar a colimação dos espelhos, adquiri uma ocular especial para esse, também Orion.

Ainda comprei um kit de limpeza de lentes da mesma marca e, para guardar todos os acessórios, uma maleta apropriada.

A maleta de alumínio Orion, importada, onde guardo meu kit de observação. Foto: Tom Lima.

A maleta de alumínio Orion, importada, onde guardo meu kit de observação. Foto: Tom Lima.

Em certa tarde, corri contra o tempo para deixar a montagem pronta, para um teste logo mais à noite, pois estava ansioso demais. Apenas prendi os espelhos na posição indicada de modo que ficassem firmes. Quanto colimei os espelhos já era início da noite.

Tive sorte, porque o céu estava limpo e estrelado. Levei o telescópio quase pronto ao quintal dos fundos, para finalmente testar a montagem óptica Foi um anticlímax.

A primeira luz me deixou extasiado

Na ausência da Lua, apontei o buscador para as Plêiades e olhei pela ocular de 26 mm, pela primeira vez. O campo de visão era surpreendentemente grande e muito luminoso, como convinha a um espelho primário de 254 mm. Movi suavemente o focalizador para afastar a ocular do secundário, buscando o foco.

De repente, comecei a ver manchas luminosas em lugares bem definidos. Movi mais o focalizador e a imagem ficou nítida. Confesso que a primeira luz me deixou extasiado. Eu me transportara para bem perto das estrelas individuais, bastante luminosos, daquele aglomerado. Fiquei surpreso, porque elas não cintilavam, como fazem se vistas a olho nu.

Em êxtase com o resultado, fiz testes com a ocular de 6,5 mm e com todas as combinações possíveis de ambas com as oculares com as Barlow.

O resultado foi 100%. Estava perfeito. Trouxe o telescópio para dentro de casa. Satisfeito, e sabendo que aquela configuração estava boa, desfiz a montagem improvisada e levei o tubo para a pintura.

Finalmente, em 10 de fevereiro de 2004, conclui a montagem do telescópio, após a montagem prévia de teste, dias antes de pintar o tubo e a base

A base eu mesmo pintei, ou melhor, envernizei. Ficou ótimo. Mas o tubo preferi fazer numa oficina especializada em pintura automotiva.

Pode parecer exagero, mas essa tarefa – feita por profissionais – durou quase duas semanas! Tive que devolver para a oficina uma vez, porque não tinha ficado bom.

Quanto finalmente recebi o tubo perfeitamente pintado, não pude refazer a montagem simplesmente porque estava chovendo.

Aliás, a oficina teve problemas com a chuva, porque atrapalhou o trabalho deles. Quando recebi o tubo, foram mais três semanas de muito céu nublado e chuva por aqui.

Os dois rios que banham a cidade transbordaram. Quando eu lembrava dos rios sentia angústia, acho que porque havia milhares de pessoas sofrendo, desabrigadas que foram por enchentes.

Bem, sequer deu para perceber a Lua cheia! Fiquei até surpreso quando vi nosso satélite natural hoje, já se aproximando de quarto minguante!

E evitei concluir a montagem do aparelho naqueles dias, porque a umidade do ar estava elevada e não queria expor o espelho primário, que preferi manter dentro do guarda-roupa durante todo o tempo.

Naquele dia 10, finalmente, fez sol. Quando deu por volta da metade da tarde, olhei para o céu e estava cristalinamente azul, sem nenhuma nuvem. Pensei: “É hoje!”. Seria a primeira observação após a completa conclusão do aparelho.

Logo ao chegar em casa, no início da noite, refiz a montagem, melhorei a colimação e, por volta das 20h40, fui para o quintal escuro.

O telescópio estava lindo, reluzente, pronto para o trabalho, depois de meses e meses de muita expectativa e até momentos em que cheguei a pensar em desistir.

Agora, o céu estava límpido. A chuva havia literalmente deletado a poeira da atmosfera. O ar estava ligeiramente frio e havia pouca turbulência.

Vez ou outra borrava apenas ligeiramente, mas logo a nitidez voltava. Diante do que testemunhei, a vontade que tive foi de chamar os vizinhos para que pudessem ver o que eu estava vendo.

A imagem estava espetacular. Com aumento de 92X, dava para ver perfeitamente cinco luas em volta de Saturno.

A Divisão de Cassini era perfeitamente visível. O cinturão equatorial sul estava claramente destacada, em cor alaranjada.

Com aumento de 380X, a sombra do planeta sobre os anéis era perfeitamente visível. A Divisão de Encke se tornou perceptível. O Anel C também era visível.

Plenamente satisfeito e feliz, focalizei Júpiter, um pouco mais tarde. Pude ver, a 138 X, turbilhões irregulares ao longo das cintas que correm paralelas ao equador do planeta.

Vi, também, pela primeira vez, através de um telescópio, a Grande Mancha Vermelha. Com aumento de 570X, Io não parecia um ponto de luz, mas era perfeitamente visível sua forma discoide.

Todos os 32 itens empregados na montagem do telescópio, incluindo parafusos, porcas e arruelas, custaram R$ 3.339,20. Esse aparelho se juntou ao meu GalaxseE 114mm Tasco, comprado anos antes. Passados quase oito anos desde a conclusão da montagem, o equipamento está como novo e me proporciona horas maravilhosas sob o céu.

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