Marte saindo de era glacial

Panorama gelado de Marte: água aflora à superfície. Imagem by NASA/JPL [Public domain], via Wikimedia Commons

Panorama gelado de Marte, pela sonda Spirit: água aflora à superfície. Imagem by NASA/JPL [Public domain], via Wikimedia Commons

Novas evidências sugerem que Marte está emergindo lentamente de uma prolongada era glacial, enquanto seus habitantes, refugiados no subsolo morno do planeta, começam a manifestar sinais de vida após longa hibernação. Tudo começou há milhares de anos, quando os marcianos, penalizados pela aproximação da severa era glacial, abandonaram a superfície agora inóspita.

Parte da população se abrigou em cavernas profundas no interior morno do planeta, enquanto outra migrou para o mundo mais próximo, Fobos, a lua oca que gira em órbita baixa, em torno de Marte.

Os dois povos sobrevivem até hoje, vivendo suas vidas em mundos subterrâneos distintos enquanto aguardam que seu planeta desperte da longa hibernação.

Isso é ficção, mas bem poderia ser verdade. Missões robóticas recentes, ao Planeta Vermelho, estão cada vez mais coletando informações que indicam que Marte uma vez teve água em abundância em sua superfície e que ela pode estar presente até hoje. E, se houve, ou há água, certamente houve, ou há vida.

Quem primeiro abordou a possibilidade de vida inteligente em Marte foi o norte-americano Percival Lowell, que viveu de 1855 a 1916. Ele escreveu vários livros no qual contava que tinha visto uma imensa rede de canais através de seu telescópio.

Evolucionista desacreditou astrônomo

Na opinião do astrônomo, os canais só poderiam ter sido construídos por seres inteligentes, num esforço derradeiro para levar água dos polos para outras regiões do planeta, que estaria ficando cada vez mais árido.

Para ele, Marte era uma vez um planeta verde, com vegetação luxuriante, mas devido a mudanças climáticas, estava se tornando desértico. As calotas polares eram as últimas fontes de água restantes e a rede de canais fora construída para sustentar a civilização.

A teoria de Lowell, claro, foi bastante questionada. O evolucionista Alfred Russel Wallace, que viveu entre 1823 e 1913, desacreditou o astrônomo em 1907, quanto à complexidade do sistema de canais imaginado por Lowell. Segundo ele, Lowell nunca tratou da inadequação das fontes relativamente pequenas de água para o suposto sistema global de irrigação.

Ou da irracionalidade evidente da construção de um vasto sistema de canais que desperdiçaria boa parte da água por meio da evaporação, quando exposta às condições desérticas das baixas latitudes do planeta.

Somente cerca de 60 anos depois os cientistas juntaram elementos suficientes para lidar com a questão da água em Marte de forma mais convincente.

Planeta pode ter água líquida no subsolo

Seguir a água tem sido a primeira da regras adotadas pelos cientistas na pesquisa por vida em mundos distantes e  inexplorados. Afinal, buscar água não deixa de ser um modo indireto de procurar vida alienígena, uma vez que a vida só pode sobreviver se estiver próxima a um manancial.

As primeiras sondagem marcianas foram feitas em 1971, pela nave Mariner 9, mostrando que não havia nenhuma rede de canais. Em vez disso, o planeta continha uma rede de leitos de rios secos e canais aluviais formados por água e deposição de sedimentos, em um passado remoto.

Além disso, a sonda mostrou inúmeras crateras vulcânicas e de impacto e um panorama extremamente hostil para suportar qualquer tipo de vida.
Hoje, contudo, novas observações estão conduzindo os pesquisadores de volta ao passado, concluindo que Marte, uma vez, teve água abundante em sua superfície e que o planeta ainda pode ter vastas quantidades de água líquida no subsolo.

Recentemente, por exemplo, fotos da sonda High Resolution Imaging Science Experiment (HIRISE), da NASA, a bordo do satélite Mars Reconnaissance Orbiter, mostraram evidências da presença de água no Planeta Vermelho agora.

Água congelada aflorando à superfície

Algumas dessas evidências são estruturas que lembram imensos dedos que aparecem e se estendem para baixo nas encostas de várias encostas e declives, durante os meses mais quentes do ano.

Essas estruturas são evidência de atividade de água salgada. Tais fontes sazonais desaparecem durante o inverno e retornam na primavera seguinte, embora não sejam confirmação de algum tipo de vida no planeta, seja simples, ou complexa.

Novas evidências de água vieram à tona em 2004, quando o espectômetro do robô Opportunity mostrou rochas contendo jarosita, um sulfato hidratado de ferro e potássio, encontrado também na Terra. A jarosita somente pode ter se formado na presença de água, mas requer condições climáticas secas, para que seja preservada.

A soda Phoenix, que pousou na superfície do planeta, mediu o pH do solo e concluiu que é alcalino, com pH entre 8 e 9, o que evidencia um solo similar ao solo de água salgada terrestre. A sonda também enviou sinais inequívocos de água congelada bastante rasa, aflorando à superfície.

Como seria Marte com oceanos, nuvens e vastas florestas. By Daein Ballard (Own work) [GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html) or CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/)], via Wikimedia Commons

Como seria Marte com oceanos, nuvens e vastas florestas. By Daein Ballard (Own work) [GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html) or CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/)], via Wikimedia Commons

Criaturas poderiam voltar à vida

Mais pesquisas eletrizantes vêm aí. A NASA instalou em Marte o robô Mars Science Laboratory, o jipe Curiosity, que detectou emanações de gás metano liberado de fontes no subsolo em regiões específicas.

Uma das regiões mais intrigantes é Nili Fossae, uma enorme fratura erodida na superfície de Marte, parcialmente preenchida com sedimentos. Estudos sugerem que as nuvens de gás metano podem estar sendo produzidas por colônias de bactérias vivendo no subsolo, embora os cientistas afirmem que possam vir de processos geotérmicos.

Sabe-se que, na Terra, metano é, frequentemente, um produto do metabolismo de organismos vivos, incluindo micróbios. Somado à forte evidencia de água existindo hoje, em Marte, os cientistas estão cada vez mais otimistas quanto ao planeta estar perfeitamente sustentando alguma forma de vida.

Uma possibilidade é que o planeta esteja lentamente saindo da era glacial, começando a descongelar parte da água do subsolo, que jorra a partir de veios que afloram à superfície, enquanto as criaturas que colonizam aquele mundo começam a voltar à vida.

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