Lunafoto com webcam

 

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Imagem da Lua com webcam, que eu mesmo obtive, acoplada ao meu refletor de 254mm que eu mesmo construí. Foto: Tom Lima.

Depois de anos de observação ao telescópio, a gente deseja fazer mais que apenas ver, através da ocular. Quer um registro, algo como um desenho ou astrofotos com webcam. Seja para partilhar com os amigos, seja para consulta posterior.

Sim. A gente costuma observar determinado sítio da Lua, por exemplo, ou uma ocultação ou trânsito em Júpiter, mas sempre se surpreende, porque uma observação nunca é igual a outra.

De fato, novos detalhes na Lua se tornam evidentes a cada sessão de observação, dependendo do ângulo de incidência dos raios solares, enquanto em Júpiter, é sempre interessante observar um dos satélites galileanos e seu jogo de luz e sombra, tendo como pano de fundo as camadas superiores da turbulenta atmosfera do planeta gigante ela mesmo uma atração renovada a cada dia.

Diante disso, a gente sempre deseja registrar o que testemunha. Uma alternativa é desenhar. Sem dúvida, é uma opção vantajosa e talvez a mais barata.  Com a vantagem de que, quem desenha o que vê pela ocular, aumenta sua acuidade para discernir detalhes.

Cabo USB e cd para instalar

Quanto mais se observa e mais se desenha, mais detalhes se sobressaem. Há várias técnicas para desenhar ao telescópio e o resultado pode ser tanto em preto e branco e tons de cinza, para desenhos lunares, ou coloridos, para observações planetárias e de espaço profundo, como estrelas, nebulosas e galáxias.

A famosa letra x, um dos alvos preferidos dos astrônomos amadores que apreciam a Lua ao telescópio. Foto: Tom Lima.

A famosa letra x, um dos alvos preferidos dos astrônomos amadores que apreciam a Lua ao telescópio. Foto: Tom Lima.

Outra alternativa é obter imagens diretas dos astros, usando equipamentos especiais. Esta é, sem dúvida, a melhor opção para os práticos, que querem resultados imediatos e mais realistas.

Obter astrofotos com uma webcam, acoplada a um telescópio e a um computador, é mais fácil do que se imagina. Veja a lunafoto acima. A imagem bonita não tem nenhuma correção alguma, a não ser a de inversão, já que a imagem mostrada ao telescópio é invertida: o que é, direita vira esquerda e o que é em cima, vira embaixo.

Não vou entrar em detalhes sobre se o sensor óptico é ou não CCD.  Optei por uma webcam que fosse fácil de encontrar e trabalhar, já que teria que fazer algumas adaptações.

Assim, comprei por R$ 25,00 uma webcam de corpo esférico, com hemisférios parafusados, conectável ao PC por um cabo USB. Veio com cd e não foi difícil instalar o driver no meu notebook.

Newtoniano que eu mesmo construí

Em seguida, a parte mais trabalhosa: adaptar e testar. Sim, trabalhosa. A gente pensa que é só tirar o objetiva da webcam e acoplar o equipamento ao telescópio e ao PC, mas há algo mais.

Para sacar a objetiva, tive que retirar os dois parafusos que prendem o hemisfério posterior da pequena câmera. Em seguida, desparafusei o circuito eletrônico do seu suporte e só então tive acesso à objetiva, que destaquei.

Feito isso, recoloquei o circuito eletrônico, que contém o sensor, e parafusei a carcaça posterior. Para finalizar, adaptei a webcam, sem a objetiva, a um velho tubo extensor de lente barlow.

Este, introduzi no focalizador do meu telescópio refletor newtoniano de 254mm, com montagem dobsoniana, que eu mesmo construí, o que digo com muito orgulho.

Ansioso, levei o telescópio, uma mesinha de trabalho e o notebook, com bateria devidamente carregada, para o quintal. A Lua, por volta da fase crescente, estava no zênite e, portanto, muito bem localizada no céu.

Liguei o PC, abri o aplicativo da webcam, direcionei o telescópio para meu alvo, com ajuda do buscador, e, com o coração aos pulos, tentei encontrar a Lua no foco, observando a imagem na tela do notebook.

Deu para discernir as maiores crateras

Nada. Tudo que consegui ver foi uma imagem absolutamente desfocada. Só um clarão sem nenhum detalhe. Nada que lembrasse a superfície da Lua. Frustrado, desliguei tudo, guardei, e fui dormir.

Na noite seguinte, tentei de novo. Calculei que era uma questão de encontrar o foco, porque a imagem que obtivera no dia anterior tendia a ficar melhor quando aproximava a webcam do espelho secundário do telescópio.

Assim, primeiro retirei o tubo barlow e fixei a câmera diretamente no focalizador. Melhorou, pois agora percebia a forma geral da Lua Crescente e era possível discernir as maiores crateras, ainda bastante desfocadas.

Não teve jeito. Desmontei novamente a webcam, tirei o circuito eletrônico com o sensor óptico e o fixei diretamente no focalizador. A imagem na tela do PC era agora bem melhor, mais compreensível.

Satisfeito, usei o focalizador para aproximar mais o sensor do secundário e… uau! Lá estava ela. A superfície acidentada da Lua estava lá, nítida, cheia de detalhes, no LCD do computador.

E, apesar de não usar ocular alguma, a imagem era bastante ampliada. Sem dúvida, em função da grande abertura do meu telescópio.

Deu até para ver a famosa letra x, um dos alvos preferidos dos astrônomos amadores que apreciam a Lua ao telescópio.

Astrofotografar Urano, Netuno e Júpiter

Esse sítio curioso fica nas coordenadas 25°S  0°, considerando que o meridiano 0° une os polos norte e sul, passando pelo centro da face visível da Lua. Então, 25° é mais ou menos um quarto da extensão desse meridiano, partindo do sul.

Na verdade, vale dizer, o x é apenas o efeito da luz do Sol incidindo quase na horizontal, iluminando, nas primeiras horas do amanhecer lunar, a altíssima cumeeira das montanhas que formam a borda das crateras Purbach, La Caille e Blanchinus, ainda na parte escura da Lua, próxima ao terminador, a linha que separa o dia da noite.

Aproveitei para tirar várias fotos e fiz até um vídeo, onde é possível perceber, com precisão, como é a imagem da Lua através da webcam, ao vivo,  na tela do PC.

No lunavídeo, a gente nota, claramente, o efeito deletério da turbulência, causado pela movimentação de ar quente e frio em camadas distintas da atmosfera terrestre.

Bem, aí está. Meu desafio agora é astrofotografar os planetas Urano e Netuno, visíveis no início da noite, e Júpiter, que nasce no horizonte leste a partir das 22h.