…e a estrela foi mesmo o Sol

 

Vênus percorre o disco luminoso do Sol, no famoso trânsito de 8 de junho de 2004. "20040608 Venus Transit" por Gestrgangleri - Obra do próprio. Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:20040608_Venus_Transit.JPG#mediaviewer/Ficheiro:20040608_Venus_Transit.JPG

Vênus percorre o disco luminoso do Sol, no famoso trânsito de 8 de junho de 2004. Imagem: “20040608 Venus Transit” por Gestrgangleri – Obra do próprio. Licenciado sob Public domain, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:20040608_Venus_Transit.JPG#mediaviewer/Ficheiro:20040608_Venus_Transit.JPG

Quem de nós viu a minúscula silhueta negra do planeta Vênus, deslizando lentamente contra o hemisfério sul do disco luminoso do Sol, no diminuto eclipse ocorrido no início da manhã de 8 de junho de 2004, uma terça-feira, certamente não observou apenas isso: notou que a estrela daquele evento astronômico foi mesmo o Sol, com trocadilho e tudo.

O trânsito em si foi um fenômeno interessante de se ver, a começar por sua raridade. Antes do 8 de junho, Vênus só foi visto cruzando a superfície solar em 6 de dezembro de 1882. Talvez não tenha ocorrido a ninguém vivo, naquela terça-feira, presenciar o fenômeno de 122 anos atrás.

Contudo, como trânsitos envolvendo esse planeta e o Sol ocorrem em duplas, haverá outro entre 5 e 6 de junho de 2012 e o próximo, só em 11 de dezembro de 2117.

Para começar, um aspecto interessante do fenômeno foi ver a Estrela Vésper, como Vênus é denominado quando aparece ao entardecer e ao anoitecer, passar a ser Estrela d’Alva, ou Matutina, como é chamado quando visível de madrugada ou ao amanhecer.

Ora, o evento, uma conjunção inferior de Vênus, aconteceu ao nascer do Sol, visto de Teresina (PI), 5º 05’21” de latitude sul e 42º 48’ 07” de longitude oeste.

Em seu movimento em torno do Sol, Vênus entra em conjunção inferior quando passa entre essa estrela e a Terra. (A conjunção seria superior se Vênus estivesse do outro lado do Sol, em relação à Terra). Como o evento foi ao amanhecer, Vênus deslocava-se de leste para oeste, de baixo para cima, quando visto de Teresina, e passou, a partir daquele momento, a ser d’Alva.

Portanto, cruzou sua linha divisória entre as fases vespertina e matutina ali, diante dos olhos de que testemunhava.

Curioso

Neste ponto, uma informação curiosa. Trânsitos não ocorrem apenas do ponto de vista de quem está na Terra. Se alguém estivesse em Marte, no dia 11 de maio de 1984, e olhasse em direção ao Sol, teria visto nosso planeta, a Terra, cruzando o disco solar por longas oito horas.

A Lua não passaria despercebida. Devido à posição relativa desses dois astros, essa pessoa teria visto nosso satélite iniciar o trânsito seis horas depois de que a Terra tivesse iniciado sua conjunção inferior.

Assim, durante duas horas, essa testemunha teria visto a Terra e a Lua como dois pontos negros – com a Lua correspondendo a cerca de ¼ do diâmetro da Terra – cruzando o Sol. Sem dúvida, um belo espetáculo.

Mas isso é um aspecto. Ao observar o fenômeno do dia 8 de junho, usando óculos de proteção (destacando que jamais se deve olhar o Sol sem equipamentos especiais de proteção, sob o risco de cegueira permanente), não pude deixar de observar algo curioso.

Como se sabe, Vênus é um objeto quase do tamanho da Terra. Na verdade, seu diâmetro é só 652 quilômetros menor que o nosso: enquanto aquele planeta mede 12.104 quilômetros de diâmetro no equador, a Terra mede 12.756 quilômetros. Portanto, se fossem colocados um ao lado do outro, praticamente não observaríamos diferença.

Vênus é também o astro de grande porte que, em sua longa órbita em torno do Sol, mais perto chega da Terra. De fato, no dia do trânsito ele estava a uns meros 38 milhões de quilômetros de distância – algo bem maior do que o percurso Terra-Lua, que tem, em média, 384 mil quilômetros.

Mas Vênus esteve bem mais perto de nós do que esteve Marte na famosa oposição de 2003, quando nosso vizinho vermelho passou a 54 milhões de quilômetros da Terra, a menor proximidade entre esses dois objetos nos últimos 50 mil anos até aquela data, reportando a um passado remoto no qual nós, como espécie humana, convivíamos com o Homem de Neandertal, e morávamos em cavernas, já tendo dominado a Europa.

Um cataclismo iminente?

Contudo, dado Vênus ser o objeto de grande porte – à exceção da Lua – que mais se aproxima da Terra, devido à interação gravitacional entre eles e devido ainda a pequenas oscilações de órbita que não têm qualquer consequência na escala de tempo de milhares de anos, mas que se somam para constituir uma grande diferença ao cabo de milhões de anos, os astrônomos não descartam a possibilidade de uma colisão catastrófica entre ambos, no futuro muito, muito longínquo.

Agora, apesar de ser um mundo com praticamente as mesmas dimensões do nosso, e ter estado relativamente próximo no dia 8, Vênus, observado a olho nu, isto é, sem equipamento de alcance, como telescópio ou luneta, mas com óculos de proteção, devo ressaltar, não passou de um minúsculo ponto negro contra a superfície incandescente do Sol, que estava, naquele momento, a uma distância de cerca de 108 milhões de quilômetros além daquele planeta, 3,84 vezes mais longe do que Vênus estava da Terra!

Apesar disso, porém, o Sol, um grande disco luminoso como pano de fundo, parecia milhares de vezes maior do que Vênus. Para se ter uma ideia, esse planeta se desloca em volta do Sol à velocidade de 35,03 quilômetros por segundo, quase a distância entre Teresina e a cidade de Altos (PI) e mesmo assim, levou cerca de seis horas para cruzar, do nosso ponto de vista na Terra, o disco solar.

Por que tamanha discrepância? Terá sido ilusão de óptica que Vênus parecesse tão lento e minúsculo? Como explicar esse aparente paradoxo? Por que o Sol parecia tão imenso?

Peculiaridades

Enquanto cuidamos dos nossos afazeres, não nos passam pela cabeça as dimensões de sua grandeza. A questão central é: o Sol não é um objeto astronômico qualquer. É uma estrela, e como tal, tem suas peculiaridades.

A palavra “estrela” evoca aqueles incontáveis minúsculos pontos cintilantes que povoam o céu claro à noite e para os quais sequer prestamos atenção. Porém, há algo de muito interessante nisso.

Existe uma relação entre esses objetos cintilantes e o Sol, porque são astros da mesma categoria astronômica.

Sabemos que as milhares de estrelas visíveis a olho nu, e outros milhões e bilhões que podemos enxergar com ajuda de um telescópio, são sóis e que esses sóis são vistos como estrelas porque estão muito longe da Terra. Inversamente, sabemos que o Sol é uma estrela e que é visto não como estrela, mas como “sol” porque é uma estrela que está muito perto de nós e com a qual estamos familiarizados.

Ora, as estrelas longínquas mais próximas da Terra, conhecidas como Alfa, da constelação do Centauro, estão a cerca de 4,3 anos-luz de nós (um ano-luz é a distância que a luz, viajando a 299.792,457 quilômetros por segundo, percorre durante um ano. São cerca de 9,461 trilhões de quilômetros).

Em comparação, um facho luminoso que deixando a Lua chega até nós em pouco menos de um segundo! E a luz que sai do Sol e aquece a Terra demora aproximadamente 8 minutos para percorrer os 149,6 milhões de quilômetros que nos separam dessa estrela.

Apesar de haver distâncias bem maiores entre os objetos astronômicos, o trajeto entre o Sol e o sistema Alfa Centauro, que na verdade e formado por três estrelas que orbitam em torno de um mesmo centro gravitacional, não deixa de ser uma distância imensa.

Escala compreensível

Para termos uma idéia espacial das distâncias envolvidas na conjunção Terra-Vênus-Sol, imaginemos, naquele dia, uma imensa linha reta unindo os três astros. De fato, a trinca formava essa configuração espacial, com Vênus ao centro, no dia do trânsito.

Naquele momento, o Sol estava 2,8 vezes mais distante de Vênus do que este planeta estava da Terra. E apesar disso, Vênus era visto como um ponto minúsculo, relativamente à estrela. Acontece que, em sendo uma estrela, o Sol é imenso.

Ele mede cerca de 1,392 milhão de quilômetros de diâmetro. É tão grande que seria necessário enfileirar 109 planetas com as dimensões da Terra para se conseguir um valor equivalente.

Se a Terra fosse uma pequena bola medindo 12,7 centímetros de diâmetro, nossa estrela mediria 1,3 quilômetro de diâmetro e  distancia entre ambos, nessa escala, seria de 150 quilômetros! Portanto, perto da estrela, Vênus não significa mesmo muita coisa.

Outros dados relativos a ela impressionam. Eminentemente gasosa, não tem superfície sólida e é constituída por pouco menos de 70% de hidrogênio e aproximadamente 30% de hélio, além de 1,5% de todos os outros elementos da Tabela Periódica.

Seu volume equivalente a 1,3 milhão de vezes o volume da Terra, e sua massa (quantidade de matéria) igual à de 332.946 massas terrestres.

Apesar de gasoso, o Sol concentra mais de 98% de tudo o mais que existe no Sistema Solar inteiro, ficando só uns 2% para todos os planetas, luas, asteróides, e cometas somados!

Em seu interior, a temperatura chega a 15 milhões de graus centígrados. O Sol gera esse calor pela fusão nuclear.

Sua imensa força gravitacional faz com que as camadas superiores de plasma (gás ionizado) desabem e se concentrem na região central da estrela, comprimindo átomos de hidrogênio, o mais simples da natureza, e fazendo-os fundir entre si para formar gás hélio, o segundo elemento da Tabela Periódica.

A cada segundo, essa fornalha nuclear transforma em hélio 600 milhões de toneladas de hidrogênio, das quais 4 milhões se convertem em energia, segundo a famosa fórmula de Einstein, E=mc2.

Essa energia, na forma de luz, calor e um jorro de partículas, é lançada em todas as direções do espaço. Apenas uma porção ínfima dessa energia atinge a Terra, mas, mesmo assim, a radiação total do Sol que chega ao nosso planeta é cerca de 20 mil vezes maior que toda a energia consumida hoje por todos nós, terráqueos.

 Quem foi mesmo a estrela

O Sol, como acontece com as outras estimadas 200 bilhões de estrelas da Via Láctea, orbita em torno do centro desta galáxia.

Está a 32 mil anos-luz do núcleo galáctico, levando cerca de 225 milhões de anos para completar uma volta, trajetória conhecida como ano sideral, viajando à velocidade de estonteantes 225 quilômetros por segundo.

Considerando que os dinossauros se extinguiram há 65 milhões de anos, nossa estrela apenas completou um quarto de sua órbita em volta do núcleo da galáxia, desde aquela data fatídica, em que um asteróide caiu na região que hoje é o Golfo do México, na América do Norte, e extinguiu boa parte da vida existente no planeta, abrindo espaço para o surgimento dos mamíferos e, mais tarde, do próprio homem.

O fato é que dependemos inteiramente dessa estrela. Quando nos alimentamos estamos, na verdade, ingerindo energia solar convertida em cereais, leite, etc.

Quando alguém coloca gasolina, álcool ou óleo diesel no tanque, está administrando uma certa porção de energia estelar ao veículo. E quando ligamos o interruptor e iluminamos o ambiente, utilizamos energia que só é gerada nas usinas hidrelétricas porque a água dos rios se encontra do estado líquido.

Esse estado da água não seria possível sem a energia solar que aquece a Terra. Na verdade, primeiro a energia do Sol aquece a água, para que só então esta seja por nós aproveitada nas hidrelétricas.

De todas as formas de energia, apenas a radioativa, tal qual a utilizada nos reatores nucleares, como os de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, não depende inteiramente do Sol, embora os minerais radiativos, como o urânio, sejam forjado no interior de estrelas de grande massa.

Portanto, considerando todos esses aspectos, a estrela do eclipse do dia 8 de junho de 2004 não foi mesmo Vênus, mas foi de verdade a estrela de fato, o Sol, Aquele que nos dá a Vida.

Leia também Vênus: o último trânsito do século