Brincando com o perigo

Órbita atual estimada do asteroide 101955 Bennu: e se der errado?

Órbita atual estimada do asteroide 101955 Bennu: e se algo der errado? Ilustração: By Ener6 (Own work) [CC BY-SA 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)], via Wikimedia Commons.

Nada tenho contra o avanço da ciência. Ao contrário, sou um defensor da causa. Mas acho que precisa haver bom senso.

Apesar dos riscos, os cientistas continuam cutucando onça com vara curta. Eles agora querem mexer com asteroides que cruzam a órbita da Terra.

Duas missões científicas, uma da NASA, a agência espacial norte-americana, e uma da JAXA, do Japão, irão literalmente chafurdar com dois asteroides em 2018 e, talvez, caçar encrenca, das grandes.

A sonda da NASA, chamada Osiris-Rex, será disparada em direção ao objeto 101955 Bennu, em setembro deste ano. A sonda japonesa Hayabusa2 (Falcão2) já está a caminho, pois foi lançada em 3 de dezembro de 2014, destinada ao asteroide 162173 Ryugu.

O objetivo declarado das suas missões é coletar amostras desses dois asteróides e trazê-las de volta à Terra. Sabe-se que os asteroides são formados por substâncias que permanecem praticamente inalteradas, desde a formação do Sistema Solar, há 4,5 bilhões de anos.

Estudar esses objetos é como estudar nosso sistema estelar naquela época remota. Possibilita, ainda, determinar com precisão o movimento celeste desses corpos.

Outro objetivo da missão é determinar a origem da água na Terra. Terá ela sido despejada aqui por asteroides, durante eventos de colisão? Trouxeram eles moléculas orgânicas que resultariam na nossa biosfera?

Alterando órbitas

O estudo dos asteroides é extremamente importante e nada tenho contra isso. Há planos até para mineração desses objetos. Em post anterior, Riscos do desvio de asteriodes, tratei disso e dos riscos envolvidos. Contudo, pode ser uma faca de dois gumes. Ou o tiro poderá sair pela culatra.

Ambas as sondas deverão ter contatos com a superfície dos objetos e alguns deles serão extremamente violentos. Aí é que está o perigo.

Asteroides de movem em órbitas precisas em volta do Sol. Porém, as órbitas podem ser alteradas facilmente.

A simples luz do Sol, incidindo sobre um asteroide, pode alterar significativamente seus parâmetros orbitais, no que é chamado Efeito  Yarkovsky.

Esse efeito diz que a luz solar aquece a superfície do asteroide e esse calor é depois irradiado de volta para o espaço.

Enquanto calor é irradiado em uma direção, essa emissão energética provoca um sutil movimento do objeto em sentido oposto. O impulso é pequeno, mas suficiente para causar uma enorme diferença, ao longo do tempo.

Eventuais choques na superfície de um asteroide, como a colisão com outro objeto semelhante, ou a detonação de um explosivo em sua superfície, também podem modificar órbitas de asteroides.

Alteração de massa é outro fator que pode contribuir para alterar órbitas. Se um objeto desses ganha massa, fica mais pesado. Se perde, fica mais leve. A perda ou acréscimo de massa altera a velocidade e consequentemente, os parâmetros orbitais.

Além disso, um sopro de ar também pode mover levemente um asteroide, considerando que esses objetos são relativamente leves.

Se todos esses fatores tornam difícil calcular com precisão a órbita de um asteroide ou um cometa, de forma a avaliar os riscos de colisão com a Terra, imagine se o homem colocar mais complicação nisso.

Pois as missões da NASA e da JAXA provocarão várias desses  fatores, ao mesmo tempo. Enquanto sobrevoará 101955 Bennu, a sonda americana estenderá um braço mecânico em direção à superfície e lançará um jato de gás nitrogênio.

De volta à Terra

O jato de ar irá espalhar grãos e pequenas rochas, que serão coletadas pela extremidade do braço. A estimativa é de que sejam coletadas de 60 gramas a 2Kg de material asteroidal, que será destinado de volta à Terra, onde chagará em 2023.

Já a sonda da JAXA, a Hayabusa2, deverá pousar na superfície de 162173 Ryugu três vezes! Ela também irá coletar material, 100 miligramas.

É pouco material. Contudo, cada pouso terá um efeito diferente sobre a órbita do asteroide, pois em dois deles disparará pequenos projéteis, para revolver a superfície no local dos pousos.

Mas, no terceiro pouso, a sonda Hayabusa2 terá que obter amostras de uma profundidade maior do solo e para isso, disparará um torpedo com uma carga de 4,5Kg de explosivos. Uma vez detonada, com violência, escavará uma cratera com 10m de diâmetro!

Toda essa intervenção nesses objetos poderá provocar alterações orbitais que poderão nada significar, ou mesmo, afastá-los do Sol. Contudo, quem sabe, pode colocar esses objetos em rota de colisão com nossa nave-mãe celeste. E nem ainda sabemos como defletir um objeto cósmico ameaçador.

Não será a primeira vez que os humanos cutucarão onça com vara curta. Sondas norte-americanas e europeias fizeram várias intervenções bem sucedidas a asteroides e cometas, desde o início dos anos 2000.

Asteroides e cometas são objetos que podem ser extremamente perigosos. O asteroide 101955 Bennu é mais ameaçador que o 162173 Ryugu.

Ambos são asteroides Apollo, que têm trajetórias espaciais muito parecidas com a da Terra e portanto, cruzam a órbita do planeta.

Bennu se aproxima da Terra a cada seis anos. Ele mede 492m em seu maior diâmetro, enquanto Ryugu mede cerca de 980m.

Apesar de menor, Bennu é mais perigoso por causa de sua órbita. Não há previsões de que Ryugu se choque com a Terra no futuro, se deixado lá como está, intocado.

Contudo, os astrônomos calculam, como certo, o impacto de Bennu, entre 2175 e 2196. Ou antes, se fizermos algo errado.

O choque da Terra de um objeto de quase 500m de diâmetro pode ser devastador. Basta lembrar que, em 15 de fevereiro de 2013, um objeto muito menor (só 20m de diâmetro), explodiu no ar, sobre Chelyabinsk, Rússia.

Edificações em seis cidades vizinhas foram danificadas e cerca de 1.500 pessoas ficaram feridas, necessitando tratamento hospitalar.

Defletir ameaças

Acho que, se quisermos, e tivermos mesmo (sim, somos uma espécie curiosa) que mexer com asteroides e cometas, temos antes que dominar técnicas de como defletir objetos ameaçadores, aqueles que viajam em rota de colisão com a única nave interplanetária de que dispomos para nós.

Ou seja, a primeira prioridade deveria ser: sermos capazes de, efetivamente, desviar ameaças vindas do espaço. Aí sim, estaríamos em condições de mexer com asteroides.

Não devemos cutucar onça com vara curta antes de estarmos certos de reagirmos ao ataque com o fim de prevenir sermos devorados.

Não bastassem os danos que causamos aqui, na estrutura do nosso próprio planeta, estamos também agredindo outros objetos, no Sistema Solar.

São atitudes que, em nome da ciência põem nossa segurança em sério risco. Creio que temos que pensar como tem feito o cientista inglês Stephen Hawking, para quem a humanidade só estará segura quando dominar as viagens interestelares.

Estaremos em perigo enquanto nos ativermos presos à Terra, ou ao próprio Sistema Solar. Daí a questão: temos que parar com as ameaças mútuas, as guerras que fazemos contra nós mesmos.

Nós não devemos ser inimigos de nós mesmos, para que possamos destinar nosso esforço e recursos a nossa sobrevivência, como espécie.